Em A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, a protagonista Tereza afirma que o amor que sente por Karenin, sua cachorra, é melhor do que o que sente por seu marido. Melhor, não, maior, por ser desinteressado, calmo e fiel. Karenin aceita Tereza como ela é, sem questionamentos nem cobranças. O que o autor abordou em uma de suas obras mais famosas foi ratificado recentemente pela ciência. Em um estudo publicado na revista Science, um grupo de pesquisadores da universidade japonesa Azabu afirma que a troca de olhares entre o cachorro e seu dono eleva, em ambos, os níveis de ocitocina, conhecido como “o hormônio do amor”.
“Adoro contar minha história com Lili porque ela é um exemplo de como o amor salva. Ela chegou até nós em um momento de dor, quando tínhamos acabado de perder uma poodle de 11 anos e curou todos nós da tristeza que havia tomado conta da casa”, conta a técnica em segurança do trabalho Andréa Celeste, dona da dachshund Lili, de sete meses. “Ela nos deu alegria. Cada dia é uma história nova. Esses bichinhos de quatro patas são amor puro, verdadeiro e sem segundas intenções”, conta ela.
O resultado da pesquisa ajuda a explicar o papel dos cães na recuperação e tratamento de uma série de distúrbios, através do método conhecido como cinoterapia, no qual os cães atuam como coterapeutas no tratamento físico, psíquico e emocional de pessoas com necessidades especiais. Além disso, o estudo fornece indícios sobre como esse animais se tornaram parte da história humana e mostra como nossa convivência com os cachorros pode ser benéfica.
“Toda vez que a gente chega é uma festa com eles. O Louis chegou pra iluminar nossa casa, trazer luz pra nossas vidas”, comenta a estudante Sílvia Helena, sobre seu cãozinho da raça shih tzu recém-chegado à família que conta com mais nove cachorros – uma sem raça definida, seis lhasas apsos, uma collie, um cocker spaniel e mais dois gatos.
“Sempre cabe mais um, é como coração de mãe. Eles são a alegria da casa e sem eles não seria a mesma coisa”, relata a irmã de Sílvia, a advogada Maria Luisa. Enquanto contam as histórias dos 12 animais que criam na casa no bairro de Dois Irmãos, as irmãs se revezam para que cada uma fique um pouco com um dos cachorros nos braços. “É um amor muito grande”, diz Sílvia.
Com a golden retriever Charlotte no colo, a estudante Vitória Menezes concorda com a ideia de que o vínculo que une um cão e seu dono é algo mais do que especial. “Ela trouxe uma harmonia entre as pessoas da casa e muita alegria também. Todo mundo que chega aqui já vai perguntando por ela”, diz.
A pesquisa divulgada na Science ratifica vínculo tão estreito: quando o cachorro e seu dono se olham, ocorre algo semelhante à bioquímica do elo entre mães e bebês. Os cães buscam o contato visual com o homem e seguem o olhar das pessoas de forma natural, assim como fazem a maioria dos recém-nascidos.
RESPONSABILIDADE
Quando passou a ser “pai” de Ernesto, um white westie terrier que chegou às suas mãos batizado como Charlie, o publicitário Fernando Lima tinha duas certezas: havia chegado a hora de ter um cão em casa e ele não deveria ser comprado, mas adotado ou recebido em doação. A segunda opção prevaleceu. A antiga dona, talvez não se sentido à altura do compromisso assumido, resolveu encontrar outra pessoa que quisesse o animal, naquela época com quase dois anos.
“As feiras de adoção crescem justamente porque as pessoas não se preparam para a presença do cachorro”, avalia Fernando, que passeia com Ernesto três vezes por dia e investe uma soma considerável em ração especial antialérgica (um problema recorrente dos white westie terriers), um sem número de vacinas e procedimentos antiparasitários. Nos sete anos de convivência com a raça – que ficou famosa depois do cão-propaganda do IG –, Fernando já está mais do que familiarizado com suas características gerais e, claro, com as peculiaridades de Ernesto. “São dóceis, independentes, inteligentes e silenciosos, mas podem ser bastante territorialistas”, lista o publicitário. Confirmando o que diz a pesquisa japonesa, geralmente basta uma troca de olhares para um saber o que o outro quer. “Quando ele adoeceu, foi esse olhar que quase me partiu no meio. Era um pedido de ajuda”, lembra Fernando. Ernesto ficou bem, e seu dono também.