
Recifense da gema, Chris Garrido, 45 anos, é uma das idealizadoras e produtora do bloco de Carnaval I Love Cafusú, que está fazendo dez anos de existência. Criadora das fantasias da agremiação e figurinista do incensado filme pernambucano Tatuagem, ela revela a Carol Botelho que, além de moda, é louca por culinária, folia e cultura de rua.
JC – Onde o Recife é mais cafuçu?
CHRIS GARRIDO – Em Brasília Teimosa. Lá, o cafuçu é Pierre Vergé (risos).
JC – Brega é paixão antiga?
CHRIS – Sempre gostei. Meu pai era seresteiro. Adoro Roberto Carlos, Nélson Gonçalves e Frank Sinatra. Tudo o que os ditos da cultura odiavam.
JC – Cultura de rua é inspiração?
CHRIS – Vou a uma padaria no Pina todos os domingos tomar café só para ficar olhando os cafuçus e as rariús que descem dos ônibus para ir à praia. Eles inventam moda. Agora a moda são os óculos de armação branca, de lente espelhada, colocados na nuca para descansar. O figurino é rosa pink. E as meninas, de cabelo pintado de vermelho com shortinho jeans bem colado e camiseta. Eles não têm medo de usar roupa colorida. Acho o máximo. E o I Love tem a ver com isso. É figurino suburbano, que acho sensacional.
JC – Diria que o I Love Cafusú nasceu por causa das fantasias?
CHRIS – Há dez anos, costumava me juntar com as amigas para alugar casa em Olinda e fazia as fantasias de todo mundo. Já tive milhões de blocos que duravam até três anos, no máximo. O I Love é que foi crescendo involuntariamente. Não acredito nessa história de conceber um bloco de Carnaval com a intenção de ficar grande.
JC – Homem pernambucano é machista?
CHRIS – Quando o bloco I Love Cafusú começou, foi nessa greia de homem de verdade ser cafuçu. Sempre achei agressivo o machismo disfarçado dos meus amigos alternativos, que só têm uma capa de modernos, mas são tão machões quanto o cafuçu. E não nos fazem gentilezas como trazer flores ou abrir a porta do carro.
JC – Como define seu estilo de vestir?
CHRIS – Sempre gostei de ser diferente. Aos 15 anos, usava moicano, tinha tatuagem e tingia minhas próprias roupas. Acho meu estilo muito pessoal. Leio muito sobre moda e introduzo algumas coisas no meu dia a dia. Adoro renda, roupas muito femininas e florais. Gosto muito de vestido.
JC – Estilismo ou figurinismo?
CHRIS – Figurino de teatro, cinema e publicidade. Gosto de criar uma peça única. Acho sensacional inventar o vestuário de um personagem. Mas gostaria de criar uma coleção para o Carnaval. Só que nunca dá tempo, por causa do bloco.
JC – Nos anos 90, quando você abriu a loja Ninho de Cobras (situada na Galeria Joana d’Arc, no Pina), deu para matar um pouco dessa vontade?
CHRIS – Sim, lá eu criava minicoleções. Era um espaço muito legal, pioneiro na proposta de vender somente moda pernambucana. As primeiras coleções de estilistas como Beto Normal e Marcelo Taulbert foram vendidas lá.
JC – Figurino foi lição de sala de aula?
CHRIS – Sou formada em turismo e fiz jornalismo até o penúltimo ano. Depois passei dois anos viajando pela Europa. Essa, sim, foi minha escola. Aprendi a viajar e a me virar sozinha. Quando voltei, acabei me envolvendo com produção de comercial, clipe de banda... E naquele tempo, produtor fazia de tudo, inclusive figurino.
JC - Do mangue até aqui, como vê o Recife?
CHRIS – Vivi uma época muito rica culturalmente no Recife, nos anos 90. É difícil ver como a cidade encaretou. Tirando a produção cinematográfica, que é muito bacana, o crescimento da cidade tem tirado a identidade dos eventos culturais, que são sempre para mais de mil pessoas.
JC – Relax é sinônimo de quê?
CHRIS – Cozinhar. Meus amigos adoram meu risoto de polvo. O lado espanhol da minha família sempre teve restaurante.