Em sua tradicional entrevista de final de ano ao radialista Geraldo Freire, da Rádio Jornal, o empresário João Carlos Paes Mendonça, presidente do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, passa uma mensagem de otimismo, confiança na renovação da juventude e no poder transformador do empreendedorismo. Sobre virada de ano, o empresário acredita que o pior já passou e que o País começa a sentir os primeiros efeitos positivos do trabalho de estabilização da economia. Confira os principais trechos:
Confira os principais trechos:
GERALDO FREIRE - Trabalhar em algum momento lhe fez mal? Eu lhe pergunto isso porque o senhor trabalhou muito...
JOÃO CARLOS PAES MENDONÇA - Tudo demais faz mal. Mas trabalhar muito é bom. Para mim, nunca foi castigo, sempre foi uma motivação grande. Trabalhar, construir, conviver com as pessoas. Na época do Bompreço, eu visitava junto com minha mulher as lojas aos sábados e domingos. Para nós, não era sacrifício. Para nós, sempre foi um prazer. Mas cada um dosa à sua maneira. É como no futebol. A pessoa que é um jogador, começa no infantil, vai para o juvenil, passa pelo profissional, termina na seleção brasileira e depois vira treinador, quando presta. Mas é interessante saber a dosagem de como trabalhar e fazer o planejamento do trabalho. Já tive 22 mil funcionários e hoje nós temos um número pequeno de colaboradores em empresas diferentes. São várias empresas de diferentes perfis. Temos o shopping, que é diferente do Sistema de Comunicação. No escritório central, a holding ocupa um andar e meio do prédio, temos poucos funcionários. Mas você tem que planejar e ter uma equipe boa para trabalhar e desenvolver com sua maturidade, conhecimento e poder de decisão. Ajudar as pessoas a se desenvolverem. É isso que procuro fazer. Hoje, sou mais treinador do que jogador.
JOÃO CARLOS - O senhor falou de futebol, torce pelo Náutico. Como o senhor convive com esse esporte?
JCPM - Não tenho paixão para ter torcedor como adversário, não sou apaixonado. Não convivo com o Náutico, é difícil. Mas convivo bem com todos os dirigentes de todos os clubes. Eu agora estou na terceira divisão com os dois clubes, o Náutico e o Confiança de Sergipe. E eles vão se enfrentar. Quando os dois jogarem, não sei de qual lado vai estar meu coração. Eu fui vice-presidente do Confiança, com 19 anos de idade, e aos 23 fui presidente.
GF - O sonho do torcedor do Náutico é ter o senhor como presidente, o que acha disso?
JCPM - Seria muito bom (risos). No primeiro mês, eu seria aplaudido. Na segunda derrota, seria apedrejado. Futebol é paixão. O certo era dirigir profissionalmente. Mas nunca dirigem de forma profissional. A paixão vem sempre em primeiro lugar. Mas a paixão é inimiga, muitas vezes, do acerto.
O Brasil precisa mudar, desburocratizar, ser um País pragmático, novo, voltado para o bem das pessoas e não para a enganação"
GF - Estamos saindo de 2017. Como foi o ano para o senhor, para suas empresas?
JCPM - Foi um ano difícil. Tivemos dificuldades, até como reflexo de outros anos e não apenas de 2017. A gente já vem pagando essa conta há muito tempo. As pessoas demoraram a entender. Mas estamos sentindo há cerca de cinco anos. Vínhamos sempre na expectativa de que os números iriam melhorar. Para o Grupo, foi um ano normal. Foi difícil, mas foi também dinâmico. O shopping tem dificuldade porque os lojistas enfrentaram os clientes sem recursos. No Sistema de Comunicação investimos forte na modernização e vamos continuar investindo em 2018 na Rádio, no Jornal. A área de comunicação é extremamente difícil. Quem acha que não é, é porque não conhece ou não quer reconhecer. É muito difícil, não agrada a ninguém. Só agrada se elogia. O pessoal acha que é fácil, mas os jornalistas e radialistas sabem que é difícil, mas, apesar do cenário, estamos animados. Vamos entregar um prédio novo da Rádio Jornal em Caruaru, uma estrutura para servir o Agreste, que está demandando R$ 10 milhões em investimentos.
GF - As pessoas não aceitam que a crise está passando e as coisas melhorando. O senhor tem essa visão?
JCPM - Estamos vendo algumas luzes no fim do túnel. Mas ainda está difícil para as pessoas que querem construir algo. Se você quer fazer a reforma tributária é uma dificuldade. A reforma trabalhista demandou um esforço enorme. E ainda há pessoas que não têm interesse em reformas. Você quer a privatização e alguém pergunta por quê. O pessoal se esquece o que era o setor de telefonia antes da privatização. Não se lembram de que era um patrimônio que tinha de ser declarado no imposto de renda. Algumas pessoas trocavam telefone fixo por 'casa na praia' e hoje todo mundo tem acesso a esse serviço. Hoje, temos a Boeing querendo se associar à Embraer, temos a Vale, Siderúrgica Nacional... Fizemos um trabalho gigantesco neste País, moralizamos o sistema bancário, mas perguntam por que privatizar. Aí eu pergunto de volta, por que não privatizar? A reforma da Previdência, por exemplo. Eu fico muito triste quando eu vejo uma autoridade dizendo que a reforma da Previdência vai prejudicar os pobres. Não vai prejudicar os pobres. Tem que ter coragem de tirar os privilégios daqueles que têm, que são a minoria. O Brasil está cheio de privilégios. O Brasil precisa mudar, desburocratizar, ser um País pragmático, novo, voltado para o bem das pessoas e não para a enganação. Hoje, o exemplo que temos é que se mente demais e, às vezes, é justamente esse quem tem mais prestígio.
GF - Onde é mais fácil empreender. No Brasil ou em Portugal?
JCPM - Portugal passou por um processo de ajustamento da economia, foram medidas absurdas, até certo ponto, na visão de muitos. Mas hoje é um país tranquilo, com muitas pessoas passeando, cheio de gente, atrativo. São cerca de 500 mil brasileiros morando lá. Mas não tenho muita experiência empresarial no país. Comprei uma quinta que, para mim é um hobby. Produzimos vinhos de qualidade, o Maria Izabel. Mas é algo pequeno, não posso julgar as dificuldades de Portugal a partir dele. O Brasil, por outro lado, é onde tenho meus investimentos. Mas precisamos mudar algumas regras. Precisamos ser mais objetivos. Precisamos lidar com os problemas com mais lealdade, eficiência. O Recife é uma cidade ótima. Pernambuco é um Estado forte do Nordeste. Somos nordestinos e o nosso negócio está essencialmente no Nordeste.
GF - Pessoas me pedem para perguntar para o senhor de emprego. Ano passado, o senhor mostrava preocupação com o desemprego, dizendo que as empresas aprendem a trabalhar com pouca gente e que retomar é mais difícil, que o emprego seria o último a crescer... O que a pessoa tem que fazer para se empregar?
JCPM - Hoje está difícil e a legislação trabalhista complica. A legislação existe para defender, mas a rigidez que ainda se manteve, apesar das mudanças, ainda prejudica o trabalhador. Prejudica o estímulo à geração de emprego. Mas as pessoas não pensam assim. Algumas autoridades também não. O emprego é difícil e hoje tem que se requalificar. Temos novas oportunidades, a classe média está estudando e temos as mulheres que ocupam cada vez mais postos de destaque no mercado de trabalho. Tenho esperança de ver, dentro de alguns anos, as mulheres tomando conta do País. Tivemos uma experiência não muito boa, mas tenho esperança de que vamos ter um trabalho bonito realizado pelas mulheres. E a classe média está estudando, e tem que estudar. São novas tecnologias surgindo, novas oportunidades. Vai haver mudanças, a internet mudou completamente a forma como passamos a trabalhar. Temos visto vários exemplos exitosos de empreendedorismo. Temos jovens dando show de criatividade, inovação. Essa é a hora da inovação, mas aqueles que ficarem parados, que não acreditarem no progresso, na tecnologia, no estudo e no pragmatismo, aqueles que não se atualizarem na forma de pensar, vão se prejudicar. O emprego vai retornar, mas não no ritmo que se espera. A economia vai melhorando. Mas tem que mudar a cabeça das pessoas. Não podemos pensar como antigamente.
GF - As pessoas da ciência dizem que o emprego vai acabar. Temos o empreendedor individual, empresas abrem e fecham. Para quem é empreendedor, o fiteiro, qual o recado?
JCPM - Tem que avaliar o seu negócio e sua vocação. Não é entrar porque acha bonito ou porque o vizinho está indo bem. Tem que saber o que se quer. Tem que ter disposição, conhecimento para implantar o negócio. Quem quer trabalhar com seriedade, tem que estudar, avaliar. Tem o chamado Networking para poder perguntar e ser aconselhado, ver oportunidades. Hoje, vejo com esperança os jovens no Instituto JCPM. Temos 10 mil pessoas que já foram treinadas só no Recife, dessas cerca de 1,8 mil trabalham no RioMar. Há uma gerente do Cinemark que se qualificou com apoio do Instituto, é moradora do Pina, e hoje é gerente do Cinemark do RioMar. Vejo um futuro grande com os jovens. Estamos desenvolvendo pessoas, é isso que procuramos fazer. Fazemos isso também na Serra do Machado, com a Fundação Pedro Paes Mendonça, um projeto que muita gente conhece. Acredito na juventude. Acredito que vamos ter um Brasil diferente. Demora, não é fácil. Mas com trabalho nós vamos conseguir. Não tenho dúvida de que, em poucos anos, teremos um Brasil diferente. Vai chegar a vez da juventude forte, para colocar esse Brasil num lugar de destaque.
GF - 2018 vai ser melhor que 2017? Por quê?
JCPM - Vai ser melhor por tudo que vem sendo feito. Poucas pessoas têm coragem de dizer. Este ano muita coisa foi feita. Até porque foram obrigados a fazer. Tem que dar continuidade às mudanças. Acho que os empresários estão deixando de lado o pessimismo, deixando de pensar em política para pensar nos seus negócios e no Brasil que queremos. Ainda será difícil, com altos e baixos. Vão aparecer candidatos de todo tipo. Mas continuo acreditando que, um dia, vamos resolver. E vamos perceber que o Brasil mudou. Temos um empresariado forte, o brasileiro empresário é criativo. Temos jovens empresários. A turma da minha idade já fez muito, já cansou de ver tanta baderna. Deixemos para os jovens, que vão se esquecer da baderna e trabalhar para desenvolver o País.