
Muita gente passou a estranhar a saída dos investidores internacionais do mercado financeiro brasileiro, justamente agora que o País engrenou com dois governos (Temer e Bolsonaro) com compromisso de manter uma política racional de gastos. Muito se ouviu que bastaria a reforma da Previdência para o capital estrangeiro aparecer e, agora, o que se vê é o dinheiro internacional saindo em volumes recordes da Bolsa. Ano passado foram R$ 44,5 bilhões e, só no início de fevereiro, foram outros R$ 5 bilhões.
Para a professora Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP), o movimento de saída é reflexo da demora das reformas. “O anúncio da vitória de Bolsonaro à Presidência criou a expectativa de que as reformas viriam em curso rápido, a Previdência, tributária, administrativa.... e aí quando a gente observa que a reforma da Previdência não veio na velocidade e na economia esperadas, com brechas para ser aprovada, acontece o mesmo em relação às outras. Isso traz incertezas e o investidor estrangeiro termina procurando oportunidades melhores em outros locais, o dinheiro é volátil.”
Neste sentido, Luiz Fernando Araújo, diretor de investimento da gestora Finacap, lembra de um fenômeno que os economistas chamam de quantitative easing, ou afrouxamento monetário. Os países desenvolvidos estão com uma política monetária agressiva de baixar os juros, movimento que também “contamina” o Brasil. Na semana passada a Selic bateu a marca histórica mínima de 4,25% ao ano.
“Ao reduzir os juros básicos da economia, a ideia é incentivar os agentes econômicos a investir em ativos reais e ativos financeiros de risco, diminuir o custo de capital das empresas para forçá-las a investir localmente. É isso que os Estados Unidos estão fazendo.”
“Com a taxa baixa, o investidor prefere ir para os EUA”, complementa o sócio-diretor da Multinvest Capital, Osvaldo Moraes. Ele diz que o cenário de queda de juros no mundo afasta os investidores estrangeiros de países emergentes, como o Brasil. “Se você consegue comprar lá fora um título de empresa grande que paga acima de 3% ao ano é mais confortável comprar em dólar, mesmo com o Brasil pagando 4,25% ou mesmo com as empresas locais, que emitem um prêmio de risco baixo. Então, é melhor estar comprado no dólar. Não é só o investidor estrangeiro, o brasileiro com mais grana e visão também vai lá fora”, explica. “Há também a questão da deflação. A maioria dos países desenvolvidos estão com deflação. Se você consegue comprar um título a 4,5%, você está sendo bem remunerado.”
Em um vídeo no YouTube, o economista Paulo Gala explica que o fenômeno do quantitative easing se explica porque “o mundo rico” atingiu um endividamento muito alto, “mais de US$ 250 trilhões”. “Nunca empresas, consumidores e famílias estiveram tão endividados. A família americana tem casa, mas tem a dívida da casa. Tem carro, escola e suas respectivas dívidas. Eles estão totalmente alavancados. Após 1990, e com avanço da Ásia, a classe média americana foi destroçada. O americano médio não tem mais o ‘american dream’ de aumento de salário. Ele está apanhando do asiático. Eles criaram uma dívida explosiva e não consomem mais e as empresas não investem”, diz.
É daí que vem o afrouxamento monetário. Com a redução de juros, o que se espera é que a economia responda. Isso explica também a situação brasileira. “A inflação está abaixo da meta, mas não há demanda da economia. O BC, reduz juros e contrai gastos, mas a política monetária está sem potência, porque o consumidor está com medo de perder o emprego, ou sendo recontratado com salário mais baixo. As empresas estão com medo de investir. Estamos num cenário de quase depressão. A implosão da economia, a partir de 2014, nos trouxe a esse cenário, mesmo com teto de gastos e política fiscal. O fato é que o Brasil está sem crescer e estamos numa situação dramática”, comenta Paulo Gala.
CORONAVÍRUS
Para completar o cenário de retração internacional, Cláudia Yoshinaga lembra da recente crise do coronavírus. “A gente ainda tem que ver o reflexo disso na economia, que está gerando uma diminuição de demanda. As pessoas estão desistindo de fazer viagens longas, quem está na China e Ásia tem diminuído a circulação. Isso tudo começa a diminuir o consumo. Hoje temos um grau de incerteza grande sobre quais países serão mais ou menos atingidos pela epidemia.”
Ela diz que apesar de tudo, o Brasil tem uma boa perspectiva de crescimento, mesmo com a taxa de desemprego ainda alta (11%). “A contrapartida é o investidor doméstico. O cenário da Selic a 4,25% passa a estimular a sua ida a Bolsa para tomar risco. Muito do que a gente viu de saída de estrangeiros da Bolsa, foi compensada pelos investidores Brasileiros”, avalia.
Até do dia 5 de fevereiro, enquanto os investidores estrangeiros tiraram R$ 5 bilhões da Bolsa, os brasileiros entraram com outros R$ 5 bilhões, segundo dados da B3.
O otimismo do brasileiro com a Bolsa, por outro lado, tem dois fatores. Primeiro porque a queda dose juros “deixou o investidor sem opção”, como diz Osvaldo Moraes, pois ele tem que ir tomar risco na Bolsa para tentar um melhor retorno dos investimentos.
Na outra ponta, avalia Luiz Fernando, o estrangeiro tenderá a voltar, quando o crescimento da economia brasileira voltar a um patamar acima de 3%, que ele acredita ser viável. O mercado financeiro, segundo o boletim Focus do Banco Central, espera um crescimento de 2,3% este ano e de 2,5% em 2021.
“O estrangeiro está pagando para ver, esperando para ver crescimento econômico”, diz. “Eles tinham uma aposta muito forte no País até 2010, quem não se lembra da capa do Cristo Redentor decolando na The Economist? Mas aí veio a política da matriz econômica (governo Dilma) e destruiu toda a credibilidade que a gente tinha.” Ele lembra que as reformas, como a da Previdência, têm efeitos de longo prazo e que outras mudanças de “cultura”, como a retirada do BNDES do investimento, também retrai o crescimento no curto prazo. “O empresário não estava acostumado a isso, fazer financiamento com agentes privados. Isso faz a retomada ser mais lenta, porém mais consistente.”
Essa mudança de chave, avalia Osvaldo da Multinvest, trará consistência também no investimento em empresas que pretende abrir o capital na Bolsa, tanto do investidor doméstico como internacional. “O estrangeiro tem alocado recursos em IPO.”
Segundo projeções de mercado, as empresas que vão abrir capital na Bolsa deverão movimentar algo em torno de R$ 120 bilhões este ano. Já no início do ano duas empresas fizeram o seu IPO, a construtora paulista Mitre, que arrecadou R$ 1,18 bilhão e a Locaweb, de hospedagem de sites, que também movimentou outro R$ 1,2 bilhão. As duas estrearam suas ações na semana passada na B3.