São João

Banda de Pìfanos Zé do Estado faz o verdadeiro rock do nordestino

Grupo com 85 anos de criado lança primeiro disco quarta-feira

JC Online
Cadastrado por
JC Online
Publicado em 18/06/2016 às 9:05
foto: divulgação/Amaro Filho
Grupo com 85 anos de criado lança primeiro disco quarta-feira - FOTO: foto: divulgação/Amaro Filho
Leitura:

"Banda de pífano é a música mais simples que a gente tem por aqui, mas é o rock do Nordeste". A definição é de Zé Gago, da banda de pífano Zé do Estado,de estimados 85 anos de existência, mas que só agora estreia em disco, que será lançado quarta­feira, na Casa do Pife, na antiga Estação Ferroviária, em Caruaru, com debates e com o primeiro show que a banda faz com o repertório do álbum. A produção do álbum é do guitarrista, caruaruense, Paulo Rafael, que participa do disco tocando numa das faixas, que tem também como convidado o flautista César Michiles.

Assim como praticamente todas as bandas de pífanos, a Zé do Estado é um exemplo de nepotismo cultural positivo. Algumas têm origem no século 19, outras vêm das primeiras décadas do século 20, com os integrantes da mesma família. "Começou com meu pai. Ele veio da Paraíba, chegou aqui em Caruaru e ficou. Meu pai se chamava José Feliciano, o Zé do Estado é porque ele trabalhou pro governo, numa repartição pública. Eu comecei na banda numa faixa de seis anos, com meus pais e meus tios. A gente tocava instrumentos de percussão, zabumba, pandeiro, tarol, caixa. Meu tio, Zé Jota, era pifeiro, outra tia tocava melê, que era um dos instrumentos da época. Hoje, a instrumentação é zabumba, prato, caixa, surdo e pandeiro, e os dois pífanos, a 1ª voz e a segunda voz", explica José Feliciano Filho, Zé Gago, 60 anos, na banda há mais de meio século.A banda tem ainda como integrantes: o pifeiro Peba (Antonio Feliciano), Gebson Rodrigues (contra surdo) Basto da Zabumba (Sebastião Feliciano).

Zé Gago era criança, em maio de 1967, quando Gilberto Gil, foi levado pelo compositor caruaruense Carlos Fernando, e outros artistas que militavam no Recife, para conhecer a cidade emblemática da cultura popular nordestina, incensada desde que A Feira de Caruaru, de Onildo Almeida, foi gravada por Luiz Gonzaga em 1957. Gil foi levado à banda de pífano dos irmãos Biano e foi daquele encontro que fermentou a alquimia sonora que depois rotulada de tropicalismo. "Quem lembra desta época é meu irmão, Tonho, que tem 70 anos. Ele também conheceu o Mestre Vitalino, que foi um bom tocador de pífano e tocava com a banda de Vicente. Os Biano foram embora pra São Paulo tem uns 40 anos porque Caruaru não dava mais pra eles. Como a gente sobreviveu, pra mim, é uma ciência. Trabalhando fora da música. De pedreiro, de pintor, saiu enrolando pela vida, mas sempre tocando. Fazia também forró, e com ele meu pai, que tocava concertina, ia mantendo as crianças".

EUROPA

Zé Gago e os companheiros da banda de pífanos Zé do Estado só agora chegam ao disco, mas a música que fazem pousou há anos na Europa, acompanhando João do Pife, outro pifeiro renomado de Caruaru. Zé Gago orgulha­-se de conhecer mais de 30 países da Europa, além dos Estados Unidos: "Já fui pra Itália, Estados Unidos, França, Alemanha, Inglaterra, Suíça. A cultura de lá é diferente, mais fechada, a banda de pífanos foi bem aceita porque é uma cultura simples, gostosa, sadia. A gente deu oficina por lá, ensinou a eles tocarem. Eles depois vieram a Caruaru pra gente ensinar mais", comenta o músico. Embora sejam de pouca escola (Zé Gago fez até o antigo terceiro primário), eles não encontraram muita dificuldades nestas viagens, seguindo um ditado bem antigo: quem tem boca vai à Roma:

"Quando chegava num lugar, o guia deixava a turma no hotel e de lá a gente se virava, saía conhecendo a cidade. Agora, às vezes, a comida era um problema. Uma vez chegamos num lugar chinês e o cara serviu toucinho doce. O prato ficou perdido. Nesses cantos de inglês só sei falar bia (beer). Quando quero uma coisinha mais quente, uma cachaça, toco na orelha. Eles entendem que é cachaça, que lá não é muito boa. Cachaça é a brasileira, a Pitú", comenta o viajado Zé Gago.

Da mesma forma como entendeu facilmente a existência de formações musicais assemelhadas às bandas de pífanos nos EUA e Europa, Zé Gago não estranha a invasão dos festejos juninos caruaruenses por bandas de fuleiragem ou sertanejos goianos: "A gente faz o que o pessoal gosta. Toca mais da cultura, de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva. Essas duplas sertanejas tocam muito diferente do que a gente faz. Mas, aqui dentro de Caruaru, tem trio de forró, tem surgido muito boi de pandeiro, e assim a gente vai levando essa cultura forte. A cultura não deve cair, a gente tem que acreditar nela, a cultura sincera, pura, sadia. A cultura é feito uma comida: se ela for boa a gente tem que dar valor", analisa.

Mas as bandas de pífanos, obviamente, hoje são bem diferentes do que no tempo de Zé do Estado, pai de Zé Gago. O melê foi substituído pelo zabumba, os pratos, segundo ele, foram introduzidos pelos irmãos Biano. E foi Zé do Estado que começou a botar pandeiro no toque do pífano: "A gente está com uma formação boa agora, com um rapaz novo, Anderson, formado, bom no pife. Peba tá agora fazendo a segunda voz (o 2º pífano) mais a gente, ele tava doente : "A música que tocamos é coisa antiga, é da região do pé da serra. Música de novena, reisado, baião, samba de latada. A novena ainda existe. Tem uns sítios aqui perto de Caruaru que ainda tem novena, de São Pedro, de Santo Antônio, muita coisa ainda continua".

Continuarão as bandas de pífanos, afirma com convicção Zé Gago: " Não acaba, não, vai ficar passando de geração a geração. Não é só no Brasil que tem banda de pífano. O planeta Terra tem muita banda de pífano, que é uma cultura que nunca vai acabar. Eu já estou aprontando um neto que tem quatro anos. Boto um zabumba, um triângulo e ele toca. Outro neto está aprendendo a história, botando no caderno a minha vida, do meu pai. Meus filhos estão começando uma banda, então não tem como acabar", garante

Últimas notícias