Literatura

Allen Ginsberg em quatro décadas de entrevistas

Poesia não via fronteiras entre literatura e jornalismo

JOSÉ TELES
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JOSÉ TELES
Publicado em 12/05/2013 às 6:00
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Mais conhecido no Brasil pelas suas lucubrações com estrelas do rock como Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones ou Grateful Dead, o poeta americano Allen Ginsberg (1920/1997) ganha um chance de ser mais bem assimilado com o lançamento do livro Mentes espontâneas (Editora Novo Século. 616 páginas, R$ 79), coletânea de entrevistas concedidas por Ginsberg entre 1958 e 1996 (a derradeira é de quatro meses antes de sua morte). O prefácio é do ex-presidente da República tcheca Vaclav Havel, que conheceu o poeta, em 1968, em Praga, quando ele foi proclamado Rei (isto em plena Primavera de Praga, que os tanques russos tratariam de abreviar). Assim como seria persona non grata em Praga, Ginsberg foi expulso de Cuba por propagar liberdade artística e sexual na Ilha de Fidel. Seria também alvo da CIA e do FBI, sobretudo durante a segunda metade dos anos 60.

David Carter, o compilador das entrevistas debruçou-se sobre 352 delas, a maioria disponibilizada pelo próprio poeta, eu considerava as entrevistas parte de sua obra: “O seu trabalho sobre as cópias das entrevistas em seu escritório é justamente a evidência de quão a sério ele levava as entrevistas. Já que Allen não apenas expandia respostas e corrigia palavras mal transcritas, mas corrigia ortografia e pontuação, indicava onde queria que linhas de poesia quebrassem, e completava e até mesmo corrigia dados biográficos”.

Para Allen Ginsberg dar uma entrevista era um ato criativo. "Ele chegava pensando em mil coisas e fazia novas combinações de sentimentos e conceitos convenientes para a situação”, explica David Carter. A seleção de entrevistas está em ordem cronológica. Nelas se pode acompanhar a linha do pensamento do poeta, e ao mesmo a mudança do tempo em relação aos entrevistadores. Sua respostas assemelham-se à sua poesia. Porém, se nos anos 1950, responde na velocidade do bebop de Charlie Parker ou John Coltrane, nas últimas duas décadas é como se a influência fosse o cool jazz de Miles Davis.

Na entrevista inicial, Ginsberg voltava de um longa temporada na França, onde morou com Williams Burrough e Gregory Corso. Estava fora do país desde que seu poema Uivo teve uma edição confiscada pela polícia sob acusação de ser obsceno. Nas entrevistas dos anos 1950, e início dos 1960. observa-se que os entrevistadores sabem muito pouco sobre Ginsberg. Não se tinha sido dado o devido valor ao movimento beat. Passam a impressão de que Kerouac ou Ginsberg são doidões, que viajam para países exóticos como Índia ou Marrocos, em busca de sexo e drogas, e que sua literatura é um amálgama do que encontraram nesta busca.

Uma de suas definições sobre a literatura beat: “Não há distinção, não deveria haver distinção entre o que escrevemos e o que, de fato, conhecemos para inicio de conversa. Aquilo que aprendemos no dia a daí, com os outros. E a hipocrisia na literatura tem sido essa – essa suposta formalidade literária, uma suposta forma que ela deveria ser. Seja nos temas, no tom, e mesmo nas organização para se distanciar da vida cotidiana (No Paris Review, em 1965).

Ginsberg discorre com desenvoltura sobre a relação entre as drogas e sua poesia, “A parte 2 de O uivo foi escrita sob o efeito do peiote, composta por uma visão produzida pelo efeito do peiote. Kadish foi escrita com injeções de anfetaminas. À medida que ele vai sendo mais respeitado como poeta, as questões são menos triviais. Com a italiana Fernanda Pivano, sua tradutora, Ginsberg aprofunda-se em dissecara poesia americana,a européia e oriental:” O que deve ser levado em consideração é o fato de que Ezra Pound, no inicio do século, com William Carlos William e Marianne Moore seguiram o caminho mostrado por Whitman nos Estados Unidos, quebrando velha forma rítmica.”
Nos anos 1980, e 1990, Allen Ginsberg já é uma instituição americana, em várias entrevistas ele precisa explicar a entrevistadores bem mais jovens, o que foram os bed-in, a marcha sobre o Pentágono.

Em uma de suas melhores entrevistas, mais objetivas, pra a Playboy, em 1969, ele surpreende ao revelar que seu poema mais famoso Uivo é uma longa metáfora sobre sexo anal; “Vergonha é apenas um aspecto do medo. Senti o mesmo quando escrevi Uivo, em 1955, aquele poema também se refere a dar o rabo, mas apenas pela menção alusiva.

Ao longo das entrevistas Allen Ginsberg revela-se impressionantemente culto, de uma sinceridade nas respostas, que fez com que algumas destas entrevistas a só serem publicadas neste livro, publicado antes que ele o revisasse, em 2001.

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