Balbúrdia

Getúlio Abelha volta a quebrar convenções do forró no Recife

Do corpo aos versos, o piauense Getúlio Abelha rompe com estéticas heteronormativas do forró, aliando comicidade e performances intensas

Rostand Tiago
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Rostand Tiago
Publicado em 28/09/2019 às 11:06
Foto: Victor Jucá/Divulgação
Do corpo aos versos, o piauense Getúlio Abelha rompe com estéticas heteronormativas do forró, aliando comicidade e performances intensas - FOTO: Foto: Victor Jucá/Divulgação
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Produzida pelo Rec-Beat em parceria com a Terça do Vinil, a festa Balbúrdia, realizada hoje, no Catamaran, contará com uma gama de ritmos de várias partes do Brasil. Seja o brega-funk estourado da dupla Shevchenko e Elloco, ou o funk carismático dos cariocas da Heavy Baile. Dentro do ecletismo desta programação, há Getúlio Abelha, piauense radicado no Ceará, que entra de cabeça no forró regional, mas colocando em xeque a heteronormatividade dos cantores do gênero enquanto emprega uma performance que abraça sem medo uma estética queer pulsante.

No palco, Getúlio troca a calça jeans e o sapato social de um Batista Lima, ex-Limão com Mel, por trajes que deixam seu corpo bem à mostra. Maricotinha e Quelindra, seus dançarinos, trabalham para além de uma encenação de fundo, fazendo parte das calorosas dinâmicas corporais que Abelha empreende enquanto canta jovens clássicos do forró e da música regional. O verso O Homem Que Eu Encontrei Me Fez Feliz, que por essas terras ganhou uma marcante forças pela voz de Eliza Mell com a Brega.com, vira A Bicha Que Eu Encontrei Me Fez Feliz, na voz de Getúlio, em uma interpretação mais uma vez aliada a uma intensa performance teatral.

"Ao invés de tentar reproduzir estilos e estéticas internacionais, eu simplesmente joguei numa sacola tudo o que eu lembrava ter de referência e grande parte disso estava no forró, sobretudo porque foi em lugares que tocavam forró que eu desenvolvi meu desejo de cantar, mas, como não sou hetero e nem tenho uma vida muito convencional, minhas músicas acabaram sendo um forró que fala de outras coisas", explica Getúlio.

A música entrou na vida de Getúlio, na infância, pelos bares de Teresina. Sempre instigado a cantar nas serestas, foi crescendo, conhecendo as divas pop – inclusive, foi o cantor quem protagonizou o episódio do beijo na perna da cantora Britney Spears em show realizado em São Paulo, em 2011 –, a música alternativa e se aproximando de outras linguagens. Foi ao Ceará para estudar teatro, mas não se deu bem com o ambiente acadêmico. Frequentava o curso para aprender algumas técnicas, mas logo foi montando peças por conta própria, além de empreitadas no audiovisual. A música voltou a pulsar e, na busca por novos públicos, decidiu lançar seus singles.

Criações e inspirações

Atualmente, são três faixas: Laricado, Aquenda e Tamanco de Fogo. A primeira gira em torno de um encontro amoroso que é dividido entre o desejo e a fome. A segunda, permeada pelos versos Prefiro usar calcinha/Ela aquenda minha neca/e valoriza minha bundinha, é justamente sobre o conforto que as roupas íntimas podem trazer para além dos gêneros para as quais foram designadas. A última, a mais explicitamente política, fala sobre a intolerância religiosa em relação aos diversos exercícios da sexualidade. Todas contemplada pelas instâncias do deboche e da comicidade.

"Descobri a importância desse tom cômico pela facilidade de acesso que isso tem no coração das pessoas e a capacidade de lutar e questionar coisas sem sentir tanta dor ou, pelo menos, aliviando com os delírios do humor. Não foi um plano, eu sou engraçado quando sou espontâneo, muitas coisas que faço são extremamente sérias e as pessoas dão risadas, e eu só aceito isso e deixo rolar sem querer controlar tanto minha imagem nesse sentido", elabora Abelha.

Agora, o artista está trabalhando em seu primeiro álbum, prometendo continuar a mistura de ritmos do Norte/Nordeste, grandes influências de sua vida. “Diferente dos três singles já lançados, ele tem músicas que mostram mais subjetividades da vida de uma LGBT que não seja brigar politicamente por um espaço mais justo na sociedade”, explica. Sobre as influências, muita gente costuma ver algo de David Bowie em Getúlio, pelas características físicas e andróginas em comum. Ele entende essa associação, mas vê diferente. As divas pop, especialmente Madonna, ocupam um lugar de destaque nesse panorama. Após concluído o novo disco, ele diz que voltará afocar nas outras linguagens artísticas em que se expressa.

O primeiro contato do público recifense com Getúlio foi na edição deste ano do Rec-Beat. O cantor precisou encarar um público que estava de prontidão para o aguardado show da Pabllo Vittar e acabou sendo a grande surpresa da noite. Muita gente não sabia o que esperar quando os primeiros acordes do forró tocaram, movendo a multidão por toda a apresentação, com os "forrozões das antigas" e o repertório autoral. “Foi uma oportunidade grandiosa de me derramar pra um grande público e surpreender pessoas que estão abertas a experiência. É prazeroso, ainda mais quando o público se identifica e está afim!”, relata, vendo sua plateia como "um público que é bem diverso, desde o tradicional aos mais contemporâneos. Mas nunca os conservadores, alguns até gostam de algumas coisas mas logo se decepcionam quando vêem outras mais despudoradas", conclui.

SERVIÇO

? Balbúrdia: Getúlio Abelha, Heavy Baile, Shevchenko e Elloco e os DJs 440 e Milena Cinismo - Hoje, a partir das 22h, no Catamaran (Cais Santa Rita, s/n, São José). Ingressos: R$ 50 (meia), R$ 60 (social) e R$ 100 (inteira).

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