
Em sua última passagem pelo Recife, na Mimo de 2012, Arnaldo Baptista lotou o Teatro de Santa Isabel – e mais uma multidão, que dava volta no quarteirão, do lado de fora. Desta vez o co-fundador dos Mutantes retorna para um show maior, no festival Coquetel Molotov, próximo dia 21, no Caxangá Golf Club.
Arnaldo apresentará o show Sarau o Benedito?, que ele toca desde 2011, ano em que retornou aos palcos. O repertório passeia pelos clássicos de sua carreira solo e dos Mutantes e inclui ainda músicas de artistas que marcaram sua formação, como Elton John e Bob Dylan, tudo executado ao piano. “É uma coisa mais ou menos improvisada, uma conexão entre eu, o instrumento e o público”, define.
Desde 1982, o paulistano vive com tranquilidade em Minas Gerais ao lado de sua esposa Lucinha Barbosa. Costuma passar dois meses em Belo Horizonte (onde está o seu piano) e outros dois em um sítio em Juiz de Fora (onde tem um estúdio com baixo e bateria). “Tem a família da Lúcia, então estou bem plantado aqui. Também tem mais liberdade, posso botar um som alto sem problema, o que eu não conseguia em São Paulo”, comenta ele, um audiófilo aficcionado por amplificadores que ouve de Lizst a Kiss e West, Bruce & Laing.
A Polysom acaba de relançar em vinil Lóki? (1974), o álbum mais icônico de sua carreira solo. Cantadas com uma voz tão frágil que parece que vai se despedaçar a qualquer momento, músicas como Será Que Vou Virar Bolor? e Desculpe são a expressão da solidão e desesperança na qual estava envolto durante a fase de ostrascismo após a saída dos Mutantes, em 1973.
Apesar desta sua condição emocional, ele contraria o consenso e diz que seu grande disco foi Singin’ Alone (1982), quando entrou em estúdio e gravou todos os instrumentos – no mesmo ano, foi internado pela sexta vez em um hospital psiquiátrico; revoltado e deprimido, tentou o suícidio pulando do terceiro andar do prédio. “O Lóki? foi botar pra fora tudo que eu estava sentindo. Eu estava me sentindo meio preso, preso à imagem dos Mutantes, então decolei com o Lóki?, onde estruturo uma coisa que eu tento ser. Mas o Singin’ Alone é mais importante musicalmente”, aponta.
Aos 69 anos, Arnaldo não é mais a voz daquela juventude que, como diria a canção Panis et Circenses, solta os tigres e os leões nos quintais. Mas o envelhecimento tem as suas vantagens. “O envelhecimento tem a ver com a gente se dedicar às pesquisas, aos estudos”, comenta ele, que, de forma objetiva, tem a evolução das espécies como seu maior interesse. “Nesse sentido eu me satisfaço um pouco porque eu já vi um disco voador e eu me aventuro por grávitons (uma partícula elementar hipotética que seria a responsável pela transmissão da gravidade). Tenho que pesquisar muito a respeito”, diz, obstinado.
Se em nos anos 1970 o grande desafio parecia ser a urbanização e industrialização desenfreadas (cantada nos versos de Navegar de Novo), hoje, para Arnaldo, uma vida melhor passa pelo vegetarianismo (estilo de vida do qual é adepto há 20 anos) e na saída do que ele chama de “idade ígnea”. “É imaginar uma vida na Terra sem o fogo. O Jimi Hendrix, numa musica do disco Axis: Bold as Love, fala que a Terra passa por uma maldição de queimar e poluir tudo. Combustível e tudo. Guerra e mais guerra por petróleo Então encaro assim. A eletricidade fotovoltaica poderia ser uma solução num país que tem muito sol como o Brasil e isso poderia ligar nos automóveis”, explica.
Ele também defende a regulamentação e liberação do uso de drogas, como na Holanda, a favor de um lugar “sem dogmas e sem caretice”. Os problemas que ele enfretou com as drogas, acredita Arnaldo, foram frutos de seus problemas particulares. “É típico do brasil esse comentário: ‘Arnaldo, as drogas foram terriveis para você’. Aí eu penso: as drogas me deram luz! Não tem nada a ver com esse modo de pensar. Não tem nada a ver com as drogas”.
“Muita gente tenta melhorar o mundo e eu fico tentando ver o lado que a Terra pode ser um conjunto, e não dividida em países e religiões”, afirma ele, que diz “não acreditar em Deus no sentido pragmático”. “Quando eu vi um disco voador eu fiquei pensando o que seria a divindade para eles. O lado espiritual sem conexão com a matéria ou algo que simplesmente não existe, que nem para todos os comunistas? Éuma coisa que depende muito do enfoque da pessoa. O lado de queimar ou não queimar”, comenta, em referência à sua música To Burn or Not To Burn.
Mais de cinco décadas depois da fundação dos Mutantes, com Rita Lee e irmão Sérgio Dias, Arnaldo Baptista parece não olhar para trás em busca de méritos. Como ele mesmo diz, só tem “saudades do futuro”. Perguntado sobre o seu maior orgulho em todo este tempo de carreira – que inclui, além da música, uma consolidada obras nas artes plásticas, o romance Rebelde Entre os Rebeldes e mais seis livros escritos à mão no fim dos anos 80, ainda não publicados –, ele não titubeia: o principal foi ter conhecido a sua esposa, que era fã de sua música e está ao seu lado há mais de 30 anos.
“O mais importante foi encontrar a minha menina que tô com ela agora, a Lúcia. É uma especie de anjo. Conheci num festival em São Lourenço, Minas Gerais, que o prefeito disse que foi o ‘Woodstock Tupiniquim’, recorda. E qual o maior arrependimento? “Agora não sei bem. Acho que não me arrependi de nada. Fiz tudo em função do que eu tava acontecendo”.
Esphera
Em maio de 2011, Arnaldo publicou em seu canal no Youtube o single I Don’t Care, um manifesto crítico contra a citada idade ígnea (“Não ligo para como costumava ser / a eletricidade solar é de graça /por todo o caminho / a caminho de nossas casas”, canta, em inglês). A música é o single do álbum Esphera, que estava sendo produzido por Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e desde 2012 está empacado.
“Não tem previsão, mas vai sair. A gente espera que saia. Já pintei a capa e gravei umas sete músicas, estou acabando, melhorando o que está pronto”, esclarece. Ele conta também que houve um problema com patrocínio e financiamento. “Parece que [é macumba, mas foi dado um dinheiro a mim pelo Governo e estava na mão de um cara que tocava no Made In Brazil (Percy Weiss, morto em 2015]. E ele morreu num acidente com o dinheiro, agora o dinheiro foi pra família dele e eu não consigo pegar. Mas vou conseguir um outro jeito”.
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