
É em Origem que a tecnologia assume um papel mais radical no contexto dos dogmas da religião, e não só a católica, até então principal alvo das provocações do escritor norte-americano Dan Brown. O best-seller, porém, reconhece que o avanço tecnológico deve ser acompanhado com atenção e revela que para ele a missão de salvar a humanidade está nas mãos dos próprios homens.
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ENTREVISTA // DAN BROWN
JORNAL DO COMMERCIO – Um dos dilemas de Origem são os limites da inteligência artificial...
DAN BROWN – Bem, há uma série de cientistas que olham para o tema e pensam “ei, isso é perigoso” e realmente todos concordam que pode ser um perigo. Há um consenso que precisamos nos preparar para conviver com a inteligência artificial, principalmente para lidar com o fato de que algumas máquinas serão mais inteligentes que nós. Hoje, a tecnologia são como crianças que nós conseguimos manter sob controle num parquinho infantil, mas a grande questão é o que faremos quando se tornarem adultos?
JC – Enquanto não sabemos lidar com essa questão, deveríamos evitá-la?
DAN BROWN – Nos últimos anos nossos cérebros de alguma estiveram conectados a computadores. Cada um de vocês tem um poderoso computador particular na mão, mais avançado que o utilizado para colocar o homem na Lua. E não podemos negar que levará pouco tempo para que tecnologias como as encontradas nos smartphones estarem de alguma forma integradas ao nosso corpo. Não acho que seja algo que podemos evitar. Temos é que garantir que nossos valores morais cresçam na mesma proporção que os avanços da tecnologia.
JC – Em Origem, além do catolicismo, há menções a outras religiões, como o judaísmo e o islamismo. Não teme de alguma forma retaliações, inclusive, na forma de ataque terrorista?
DAN BROWN – De forma alguma. Meus livros não são sobre doutrinas religiosas, são apenas thrillers com a pretensão de serem divertidos. A diferença é que tratam de temas importantes e a religião definitivamente é um deles. Além do mais, eu não acho que terrorismo tem a ver com religião. Normalmente, todas elas são filosofias apaziguadoras. No contexto do terrorismo, a religião funciona como uma espécie de desculpa para levar as pessoas a fazerem coisas terríveis.
JC – Como explicar que as religiões perdem cada vez mais seguidores e seus livros que tocam no tema seguem no caminho inverso?
DAN BROWN – Na minha infância, os milagres eram a ressurreição, criar seres humanos do nada ou outras experiências mágicas da Bíblia. Hoje, o milagre para os garotos são as possibilidades dos novos sistemas operacionais do smartphone. A tecnologia é onde os milagres são possíveis na atualidade. É por isso que quando se tenta convencer jovens com histórias sobre alguém que voltou do mundo dos mortos ou sobre um casal de pessoas brancas que viviam num jardim terem originado raças tão diferentes, eles vão se perguntar “do que esse cara está falando?”. A religião deve preservar o lado de comunidade, de comunhão entre as pessoas, uma filosofia de união e paulatinamente abandonar certos dogmas que interferem na sociedade em áreas onde a ciência é mais apropriada.
JC – Então, é a tecnologia e não a religião que vai nos salvar?
DAN BROWN – Nós sempre tivemos um fundamento moral, um código interno, que nos evita de fazer coisas ruins. A religião não tem os direitos autorais da moralidade. Eu não preciso dos Dez Mandamentos para saber que não devo machucar ou matar alguém. Nenhum de nós precisa. Nós sabemos disso. Mesmo uma criança de quatro anos de idade sabe que não deve pisar num animal quando o encontra. Não é a religião que deve nos salvar. Nem mesmo a tecnologia. Nós é que devemos nos salvar uns aos outros.