
LISBOA – Se a Bíblia ainda é o livro mais vendido do mundo, Dan Brown segue incansável na luta para se consolidar como seu principal concorrente. E assim como em qualquer ramo de negócio, da literatura à religião, o segredo passa em copiar a estratégia do rival. Em Origem, o escritor norte-americano volta a repetir a fórmula que lhe conferiu fama e fortuna desde O Código da Vinci, ao confrontar em forma de um thriller o modus operandi da Igreja Católica, no melhor estilo “o sujo falando do mal-lavado”, como se ele mesmo não se utilizasse expedientes semelhantes na desenfreada busca em aumentar o já numeroso rebanho.
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Como não fazia desde O Código da Vinci, Dan Brown entrou em turnê de promoção de Origem, no início de outubro. Hoje, o escritor lança mundialmente o quinto livro da saga capitaneada pelo professor de simbologia e iconologia de Harvard, Robert Langdon, em Barcelona, palco de maior parte da trama. A última escala antes do evento na capital catalã foi em Lisboa, domingo (15), quando Dan Brown aproveitou para interagir com fãs e falar sobre a expectativa de voltar a tirar o sono do papa numa conferência com a imprensa.
Assim como os outros quatro livros protagonizados pelo simbologista Robert Langdon, Origem entrega o que promete como misto de entretenimento, guia de viagem e resumão para o Enem. Em mais de 500 páginas, o best-seller volta a confrontar os dogmas católicos, como o fez quando pôs em xeque o status de Jesus como um solteirão sem herdeiros. Agora, Dan Brown aponta o microscópio da ciência para a origem e o destino da humanidade, apostando num fim apocalíptico-integrado para todos nós.
Para isso, o autor mais uma vez escreve certo pelas linhas tortas da narrativa dogmática que adotou com fé cega. Na bíblia de Dan Brown, a santíssima trindade é composta por uma teoria da conspiração (a já mencionada origem do homem), um gênio da arte (desta vez com Gaudí no papel que já foi de Da Vinci e Dante), e um destino turístico, no caso Barcelona, o que lhe garante um ar profético, afinal, nos últimos meses poucos lugares do mundo estiveram tanto sob os holofotes da mídia quanto a capital catalã, sacudida por atentados terroristas e manifestações separatistas.
Origem também ressuscita das velhas escrituras de Dan Brown os mesmos personagens, mas com CEP e CPF diferentes: o cadáver que esconde um importante segredo, o obstinado e frio assassino movido pela fé, o destemido e determinado policial incorruptível, a brava e bela mulher, os figurões de altos escalões da igreja e do governo, além de códigos, dezenas deles, devidamente elucidados por Langdon, que até hoje só não conseguiu revelar como é professor de simbologia de Harvard mesmo a prestigiada universidade não tendo em sua grade a disciplina de simbologia.
FUGA DE UBER
Como a Igreja Católica, Dan Brown lentamente abre concessões progressistas em Origem. Não só a produção contemporânea passa a compor a ementa das indefectíveis aulas de história das artes, como agora o simbologista divide os méritos dos insights entre o seu abençoado intelecto e a inteligência artificial de um supercomputador. Há outras tentativas “modernosas”, como o assassino usar um Uber na fuga, ou a intenção de se tocar no tabu religião-homoafetividade, ambas meio forçadas, mostrando que, também na literatura, de boas intenções o inferno está cheio.
Se a tecnologia tem papel relevante na voz do computador Wiston – Dan Brown sugere inclusive que Hugh Grant deva dublá-lo na inevitável versão do cinema – a participação feminina, assim como nas narrativas religiosas, segue em segundo plano. A beldade da vez, Ambra, é até apresentada como a forte e independente curadora do audacioso Guggenheim de Bilbao, mas aos poucos o autor a “enquadra” como as coadjuvantes de suas obras, escalada apenas para estar no lugar certo e fazer a pergunta certa. Ambra acaba até de certo ponto punida pela ousadia de tentar ser uma mulher diferente, antes de generosamente lhe ser concedido um final de contos de fadas.
A trama de mais de 500 páginas decorre em menos de 24 horas, nas quais o protagonista empreende um tour de force – e também turístico – contra inimigos poderosos guiados por ordens emitidas de corredores sombrios em palácios reais e catedrais. Sempre arrastando a mocinha pelas mãos e guiado pela voz de Hugh Grant, Langdon precisa descobrir uma senha de 47 caracteres – isso mesmo, 47! – capaz de destravar o computador do futurologista Edmond Kirsch, um perspicaz ateu e nerd empedernido, ou vice-versa, morto por ameaçar revelar a origem e o destino da humanidade.
Aos não-iniciados em Dan Brown, Origem pode abrir as portas às frenéticas aventuras do acadêmico, pois a trama não se relaciona com os livros anteriores. É a chance de conhecer a literatura de verniz erudito e conteúdo superficial, construída por versículos – ops, ato-falho – capítulos curtos e encadeados no esquema de caixa de lenços de papel, onde é praticamente impossível se puxar uma folha sem seguir imediatamente para outra. Aos antigos fãs, não há nada a temer na busca pelas respostas sobre de onde viemos e para onde vamos. Robert Langdon é o seu pastor e nada lhe faltará.