
Se por acaso você estiver no ônibus, metrô, em um consultório ou mesmo num café e alguém, mergulhado nas páginas de um livro, começar a rir em voz alta, é bem capaz que esteja lendo alguma crônica de André Laurentino. Dependendo da duração do percurso, várias gargalhadas serão ouvidas, ao menos uma para cada crônica – e se a situação se passar na sala de espera de um médico, com certeza serão muitas. O fato é que o cronista pernambucano não irá se decepcionar com o leitor a partir do pedido que faz no título: Não me deixe aqui rindo sozinho, da editora Realejo Livros.
Lançado na última Flip, o exemplar reúne 61 crônicas, publicadas ao longo dos 10 anos que Laurentino, original olindense style, escreveu para o jornal O Estado de São Paulo. Pernambucano que já morou quando criança em Fortaleza e se radicou adulto em São Paulo, André Laurentino fez recentemente da Inglaterra sua morada, com esposa e filhas. Apesar de a grande maioria dos textos reunidos no livro partir de acontecimentos e lugares de São Paulo, o Recife e a Olinda natal do autor também marcam presença e rendem ótimas anedotas. Mas independente da localização geográfica, os textos de Laurentino revelam a essência própria da crônica: falar de temáticas universais a partir de situações locais. Em tempos de diluição de fronteiras devido à popularização das redes sociais – em que o Facebook se transforma no diário aberto de muitos e circunstâncias banais são compartilhadas em poucos cliques –, qual o papel de um cronista? A crônica literária, para Laurentino, tem uma função que se assemelha um pouco à de um drone, a partir do momento em que o escritor extrai dos episódios cotidianos algo maior. “De fato, hoje, todo mundo tem , com o Facebook um público leitor. Mas o que falta, eu acho, é a observação, algo que transcende aquele comentário banal como o que foi o almoço.”
O motorista de táxi que tem teorias explicativas para tudo, a mania que todos temos (ou já tivemos ao menos uma vez) de ficar ouvindo a conversa alheia num restaurante, ou ainda o voyeurismo saudável que resulta num conhecimento sistemático da rotina dos moradores do prédio da frente são alguns dos temas abordados por Laurentino em Não me deixe aqui rindo sozinho. Muitos dos textos já eram conhecidos pelo público leitor do jornal paulista, mas outros são frutos das observações da vida no Velho Continente. Formado em publicidade, área em que atua no momento, Laurentino tem também experiência como roteirista de TV, tendo integrado já o núcleo de Guel Arraes na Globo. Lá ele trabalhou ainda junto a seus antigos colegas recifenses João e Adriana Falcão. Retrato Falado, quadro protagonizado por Denise Fraga, e Sexo Frágil, que reunia Wagner Moura, Lázaro Ramos, Lúcio Mauro Filho, entre outros atores, foram dois dos trabalhos televisivos em que André trabalhou.
Vida na Inglaterra
A trajetória de André Laurentino não nega a megalomania local de acreditar que os pernambucanos podem chegar e estão em todo lugar, pois de Pernambuco ele está agora falando para o mundo. Atuando como diretor executivo global de criação para a Unilever na Ogilvy & Mather, ele esteve presente em Cannes no ano passado integrando um dos júris do prêmio Lions Health. Experiência esta que também é lembrada no livro com a crônica Love, Love, Love (protagonizada por ninguém mais e ninguém menos que Ronaldo Fenômeno).
A mudança de São Paulo para Londres se deu há cerca de quatro anos e, apesar da nova rotina inspirar Laurentino, ele descarta por enquanto os planos de escrever e publicar em inglês. “Em inglês, eu sei o peso das palavras porque alguém me contou, ou aprendi com o dicionário. Mas não é algo que eu sinta por mim mesmo, então fica difícil”, explica. “Mas algumas crônicas que estão no livro foram escritas quando eu mudei para cá, como por exemplo a do Chá ou Medos Primos, quando conheci o irlandês que me contou as histórias de seu país e eu fiz o parentesco com as lendas urbanas do Recife da Perna Cabeluda e o Biu do Olho Verde.” Sobre os próximos trabalhos, não há nada totalmente garantido, mas sim a promessa de que, quando encontrar tempo, André Laurentino continuará colocando em forma de escrita “a obrigação de prestar atenção na vida.”