RESENHA

A escrita do absurdo de Pablo Palacio

Escritor modernista equatoriano é publicado pela primeira vez no Brasil pela coleção Otra Língua

Diogo Guedes
Cadastrado por
Diogo Guedes
Publicado em 07/10/2014 às 5:00
Leitura:

Há sempre uns universos literários inimagináveis por se descobrir. A primeira obra do escritor modernista equatoriano Pablo Palacio publicada por aqui – ainda que com alguns descuidos editoriais –, Um homem morto a pontapés (Rocco, tradução de Jorge Wolff), é uma dessas pequenas e estranhas surpresas para o leitor brasileiro. Com dez contos e uma breve novela, o volume escrito em 1927 traz uma das experiências singulares e revolucionárias que estavam escondidas por nossa ignorância da produção latino-americana.

Logo no primeiro conto, que empresta o título à obra, vê-se um narrador curioso com a notícia de um homem espancado pelo simples fato de pedir um cigarro. A bruxaria, a homofobia, o canibalismo (em um diálogo maravilhosamente casual com nossa antropofagia) e a sífilis, além de uma mulher que convive com dois corpos dentro de si, são exemplos de como Palacio trazia assuntos pouco usuais para sua literatura.

O mais impressionante, no entanto, é como os tratava. O autor equatoriano, que passou depois dez anos em um hospício e morreu precocemente, em 1947, ironizava os caminhos da própria trama e rejeitava claramente as convenções do naturalismo e realismo destruindo a farsa de uma prosa com ares precisos e científicos. Como revela em um dos contos, “somente os loucos espremem até as glândulas do absurdo e estão no plano mais alto das categorias intelectuais”. Parecia querer dizer que só o absurdo e a loucura expõem bem nossa vida.

Leia mais na coluna Escrita desta terça (7/10).

Últimas notícias