
Se é verdade que o mundo começou no Recife, como disse o pintor Cícero Dias, é da paisagem mais charmosa da capital pernambucana que vêm todas as coisas. Oficialmente, ele se chama Bairro do Recife, mas recifense que é recifense só chama Recife Antigo. Se tiver mais intimidade, aí basta Antigo mesmo. Em forma de ilha, o bairro é, sem dúvida alguma, um mundo à parte. As ruas de paralelepípedo e pedras portuguesas, ladeadas pelo casario colorido de arquitetura europeia não deixam mentir. O Antigo respira a história da cidade, mas também é polo tecnológico e oferece algumas das melhores opções de lazer e cultura do Recife. Achou pouco? O bairro, parada obrigatória para qualquer turista, ainda é a estrela do Carnaval recifense.
Quando os primeiros clarins de Momo anunciam a folia em Pernambuco, todos os caminhos levam ao Marco Zero. Muito mais do que apenas servir de referência para medir a distância entre as cidades, ele é o coração da festa, que bate ao som de diferentes ritmos e agrega as mais variadas tribos, nações e expressões culturais. Do maracatu ao frevo, passando pelo afoxé, caboclinho, urso e pela poesia dos blocos líricos, o Antigo se tornou uma joia do Carnaval pernambucano. Uma história que começa há cerca de duas décadas.
Foi em meados dos anos 2000, na gestão do então prefeito João Paulo, que o Recife Antigo ganhou evidência. Mas é preciso fazer aqui uma pausa e voltar no tempo para entender a ligação do bairro com o Carnaval. “Trata-se da área portuária da cidade, onde tudo começou. Os clubes de frevo surgiram com os trabalhadores do porto”, explica a historiadora e pesquisadora da Secretaria de Cultura do Recife Carmem Lélis. Não é à toa que muitas agremia-ções tinham nomes associados aos trabalhos braçais, como “Pás Douradas”, “Os Vassoureiros” e “Os Lenhadores”. Para a especialista, o porto acabou sendo um incentivador do Carnaval, que ganhava força logo ali, do outro lado da Antiga Ponte Giratória, no bairro de São José.
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A chegada do protagonismo do Recife Antigo
O Antigo só viraria protagonista mais de um século depois, quando a gestão pública levou para o Marco Zero as principais atrações da festa. “Com o Carnaval dos grandes palcos, essa área passou a ser uma referência maior. Hoje todas as agremiações e todos os artistas querem passar pelo Marco Zero. Os grupos chegam até a mudar o itinerário para estar ali, com o intuito de ter maior visibilidade”, comenta Carmem Lélis.
É no Antigo que acontecem a abertura e o encerramento oficiais dos dias de Momo na capital. Mas como em terras pernambucanas o calendário é mera formalidade, a folia começa muito antes do Sábado de Zé Pereira. Ensaios tomam conta do período de prévias nos principais pontos da festa desde o mês de janeiro. Há três anos, as boas-vindas à época mais esperada do ano são dadas pelos 24 grupos de afoxé de Pernambuco, no encontro chamado Ubuntu. São eles que lavam as ruas para energizar a festa que inicia. “Antes havia o entendimento de que era uma linguagem baiana e não de matriz africana. Esse evento é uma valorização, a prova de que isso está mudando e que o afoxé é tão valioso quanto o frevo ou o maracatu. Estar no Recife Antigo não foi fácil, mas muda tudo”, argumenta o presidente do Afoxé Omim Sabá e secretário da União dos Afoxés de Pernambuco, Marcos Silva.
Antes protagonistas da abertura do Carnaval no Recife, as nações de Maracatu agora fazem o encontro apoteótico chamado Tumaraca na quinta-feira que antecede a folia oficial. Durante 16 anos, o evento que reúne mais de uma dezena de Nações de Maracatu de Baque Virado no Marco Zero, teve à frente um dos maiores nomes da cultura pernambucana: Naná Vasconcelos. “Antes dele, não existia nenhum encontro de maracatu. Foi com a chegada de Naná que batalhamos nosso espaço e conseguimos criar uma associação”, conta o presidente da Associação dos Maracatus Nação de Pernambuco (Amanpe), Fábio Sotero. O músico recifense reconhecido internacionalmente como o maior percussionista do mundo faleceu em 2016 e ganhou uma estátua no Marco Zero. Está eternizado no imaginário e também na paisagem da cidade que tanto amou.
Durante o Carnaval, as ruas são tomadas por diversas manifestações culturais. Ao palco do Marco Zero sobem escolas de samba, agremiações de frevo, boi, urso, maracatu e blocos líricos. As noites são embaladas por shows gratuitos de grandes atrações pernambucanas, nordestinas e nacionais.
A festa se espalha pelos quatro cantos do bairro, como as Ruas do Bom Jesus, da Guia e da Moeda. A última é o endereço certo para quem prefere curtir os dias de Momo ao som do samba. De lá, um corredor leva até a Praça do Arsenal, conhecida pela mistura de ritmos regionais, como frevo, maracatu e coco. O Arsenal também tem a cara do Carnaval em família, já que o polo oferece atrações voltadas para a criançada foliã.
No Cais da Alfândega, o “lado B” do Carnaval reúne multidões. O local é o principal ponto de encontro da música alternativa no Recife. Em 2020, o Rec Beat, considerado um dos principais festivais da música independente do Brasil, comemora 25 anos.
E é ao som do mais pernambucano dos ritmos, que entra na cabeça, toma o corpo e acaba no pé, que a folia se encerra na capital. No palco do Marco Zero, o Maestro Spok recebe convidados, ao som da SpokFrevo Orquestra.
Quando o dia amanhece, ele comanda a despedida do Carnaval, com o Orquestrão do Frevo. Uma tradição de mais de uma década. “O Carnaval do Recife antigo é mágico, porque é onde as pessoas podem estar lado a lado com todas as manifestações culturais. O encerramento, para mim, é o momento mais mágico do Carnaval pernambucano, porque reúne 200 músicos. É uma grande comunhão”, afirma Spok.
Do palco para o chão, do chão para o palco. “O Carnaval no Recife Antigo é um verdadeiro encontro”, resume Carmem Lélis. “Todas as expressões são importantes. A gente só não pode permitir que os grandes palcos sejam responsáveis pelo fim da essência do Carnaval, aquele que nasceu no bairro de São José”, pontua a especialista.