
O arquiteto, como todo mundo sabe, é aquele profissional que cria projetos de edifícios, casas e cidades. Porém, quando ele se une a cientistas políticos com afinidades de pensamento os horizontes se abrem. Assim, tanto pode ajudar uma nação de maracatu a arrecadar recursos para a reforma da sede do grupo quanto abrir campanha de captação de verba para restauração de um prédio ícone como o Holiday, em Boa Viagem, na Zona Sul do Recife.
“Mais do que o aspecto financeiro, nosso trabalho tem repercussões humanas, apoiamos ações para ajudar a diminuir a pobreza”, declaram Lucas Lima e Flavius Falcão, cientistas políticos e integrantes do coletivo Vendaval Catalisadora de Impacto Social + Chão Atelier. A equipe é formada por três cientistas políticos e quatro concluintes do curso de arquitetura e urbanismo, sendo três da UFPE e um da Faculdade de Ciências Humanas Esuda.
A função do grupo, explica Lucas Lima, é acelerar mobilizações que já estão acontecendo na cidade de iniciativa comunitárias, de ongs e de movimentos sociais, culturais e políticos. Uma das ações em curso é a captação coletiva para conseguir o dinheiro necessário à reconstrução da sede da Nação do Maracatu Encanto do Pina, criada em março de 1980 na Zona Sul do Recife. Os brincantes ocupam uma palafita na comunidade do Bode.
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Nação do Maracatu Encanto do Pina (Foto: Chico Porto/Acervo JC Imagem)
Com a vaquinha virtual no portal Benfeitoria eles pretendem alcançar o valor de R$ 15 mil. Para colaborar é preciso acessar o link https://bitly.com/NovoLarPina e fazer a doação até 23 de junho próximo. “Nosso espaço é pequeno para as atividades sociais que oferecemos a crianças e jovens da comunidade e para guardar os instrumentos musicais”, relata Joana D’Arc da Silva Cavalcante, mestra do Maracatu Encanto do Pina. O dinheiro será usado na construção de um galpão, informa a mestra.
No caso do Holiday, interditado pela Justiça em março de 2019 devido às condições precárias do imóvel, a Vendaval Catalisadora de Impacto Social + Chão Atelier criou campanha para obter os recursos que serão destinados à obra emergencial na edificação. “A vaquinha virtual (encerrada) para o Holiday é um pedaço da captação, continuamos com um plano de arrecadação para a restauração do prédio”, declaram Lucas Lima e Hugo Bresani, estudante de arquitetura da Esuda e vinculado ao coletivo.
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Edifício Holiday em Boa Viagem (Foto: Leo Motta/JC Imagem)
Lançada em 2018, a Vendaval Catalisadora atuou na campanha coletiva das deputadas Juntas (PSol), com projeto de comunicação; auxiliou o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na compra de um portão para a ocupação Marielle Franco, no Centro do Recife; e está às voltas com a captação de verba para a manutenção do Parque dos Mamulengos, em Surubim, no Agreste pernambucano.
ASSESSORIA
Outro grupo de apoio a comunidades é a Cooperativa Arquitetura Urbanismo & Sociedade (CAUS), criada em 2015 num processo de reestruturação do Diretório Acadêmico de Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco. “Queríamos levar o conhecimento teórico para as ruas”, diz o estudante da UFPE e membro da CAUS Wallace Rodrigues, ao explicar a origem do grupo.
Numa atuação em conjunto com o Centro Popular de Direitos Humanos (CPDH), a CAUS conseguiu fazer intervenções em um casarão modernista no bairro da Tamarineira, ocupado por famílias sem teto há mais de 20 anos. “O primeiro trabalho foi a recuperação da coberta e a colocação de extintor de incêndio”, informa o estudante de arquitetura. A cooperativa ainda está elaborando propostas para melhorias na edificação.
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“Construímos as soluções em conjunto com as famílias”, destaca Wallace Rodrigues, acrescentando que isso vale para a definição das obras a serem realizadas e a escolha da forma de captação de recursos para a execução dos serviços. A CAUS também atua em comunidades, como o Pilar (Bairro do Recife) e Caranguejo, Zona Especial de Interesse Social (Zeis) em Afogados, Zona Oeste da capital, com assessoria técnica.
Formada por dez pessoas, cinco arquitetos e cinco estudantes, a cooperativa atua como mediadora de conflitos entre prefeitura e moradores. Eles acompanham as comunidades em audiências públicas e reuniões no Ministério Público, quando necessário. “Orientamos as famílias para que elas sejam protagonistas nas pautas com os governos”, declara Wallace Rodrigues. “Elas passam a fazer uma leitura crítica dos projetos da prefeitura”, diz o arquiteto da CAUS Luan Melo.
Um dos resultados práticos no Pilar foi a inclusão da comunidade na lista de Zeis da cidade na proposta de revisão do Plano Diretor do Recife, enviada pela prefeitura à Câmara de Vereadores em dezembro de 2018.
UFPE
A atuação diferenciada de jovens arquitetos no mercado, de acordo com o professor de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco Luiz Amorim, reflete o novo currículo implantado na UFPE em 2010. Antes da reforma curricular a faculdade estava mais focada em ensinar o aluno a projetar edifícios. Com a mudança, os estudantes passaram a ter um contato mais direto com a sociedade, afirma Luiz Amorim.
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Arquiteto e urbanista Luiz Amorim ((Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem)
Nos quatro anos do curso, os alunos são estimulados a fazer escolhas, com autonomia crítica e capacidade para tomar decisões. “Uma instituição pública deve oferecer todos os caminhos para a formação do estudante”, destaca Luiz Amorim. O currículo prevê mais disciplinas eletivas e isso representa cerca de 25% da carga horária com atividades que os jovens elegem por vontade própria, diz ele.
“Os estudantes estão levando para as ruas a experiência do curso, criando soluções para problemas coletivos da comunidade com a consciência social que desenvolveram na faculdade”, informa. Também contribuíram para essa mudança, na avaliação do professor, as exigências do mercado de trabalho atual e o sistema de cotas nas instituições de ensino. “As cotas levaram para a universidade jovens com outros olhares sobre a cidade, temos um cenário mais rico no câmpus”, observa o urbanista.
Para o arquiteto e professor da UFPE Enio Laprovitera, a reformulação do currículo é uma das referências para explicar essa nova maneira de ser arquiteto e de fazer arquitetura. “O currículo despertou uma sensibilidade maior para a cidade, um olhar mais social e voltado para os espaços informais”, declara Enio Laprovitera.
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Arquiteto e urbanista Enio Laprovitera (Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem)
Ao lado da grade curricular, ele destaca a identificação de parte dos estudantes com os movimentos sociais e a nova visão de fazer política que a juventude tem levado para as ruas, centrada no cotidiano. “Os estudantes estão mais próximos dos movimentos sociais e conseguem ajudá-los com captação de recursos e revertendo as demandas em projetos desenhados com a participação das comunidades, é uma postura inovadora com um grande desafio pela frente”, afirma Enio Laprovitera, coordenador do Fórum da Arquitetura Social de Pernambuco, um projeto de extensão da UFPE.