história

Viagem à memória de dom Helder Camara

Milhares de documentos e manuscritos do Dom da Paz estão sendo recuperados e estarão disponíveis em breve

Cleide Alves
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Cleide Alves
Publicado em 16/11/2013 às 21:17
Hélia Scheppa/JC Imagem
Milhares de documentos e manuscritos do Dom da Paz estão sendo recuperados e estarão disponíveis em breve - FOTO: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Toda vez que lia um livro, dom Helder Camara (1909-1999), sublinhava frases, destacava parágrafos inteiros e fazia anotações nas páginas, de caneta, comentando a leitura. Numa dessas publicações, "Diálogos com Paulo VI", do jornalista francês Jean Guitton, ele registra suas impressões sobre a censura que recebia da Igreja Católica. O ano era 1969, em plena ditadura militar no Brasil, e dom Helder, arcebispo de Olinda e Recife, tinha sido proibido pelo Vaticano de fazer viagens internacionais.

“Agora, entendo ainda mais, uma carta autografada que tive a honra e a tristeza de receber numa Sexta-Feira Santa. 1969, julho: agora, a Providência me torna membro da igreja silenciosa...”, desabafa o religioso numa das páginas do livro. A correspondência a que dom Helder se refere tinha sido enviada pelo cardeal Giovanni Benelli (1921-1982) e dizia para ele se ocupar com a arquidiocese, porque o peregrino da Igreja é o papa.

Dom Helder vivia, naquela ocasião, o momento de maior inquietude com relação à figura do pontífice, avalia a historiadora Lucy Pina. “Por conhecer Paulo VI antes de ele ser papa (1963-1978), o arcebispo não entendia como ele concordava com uma proibição sem fundamento. Essa revolta silenciosa está estampada no livro”, conta Lucy, que pesquisa o acervo do chamado Dom da Paz para contextualizar as anotações. “Compreendi o significado das notas quando achei e li a carta de Benelli, datada de 1969”, acrescenta.

Os comentários no livro, diz ela, são inéditos. “Revelam o homem sob a batina, é dom Helder por ele mesmo, o esqueleto que possibilitou o ser político e religioso”, descreve a historiadora. Ela estudou a vida do arcebispo no mestrado e pretende aprofundar a pesquisa no doutorado, usando parte desse material, só agora manuseado.

Nas anotações que deixou no livro "Diário íntimo de um adolescente" (Aníbal Ponce), dom Helder faz confidências sobre essa fase da vida dele, passada no Ceará, terra onde nasceu, em 7 de fevereiro de 1909. Ele leu a publicação em 1944, no Rio de Janeiro, quando dava aulas de psicologia na Pontifícia Universidade Católica, diz Lucy.

Os dois livros integram um acervo de milhares de documentos (a contagem ainda não terminou) que serão recuperados, organizados, acondicionados e armazenados de maneira adequada. Depois, ficará à disposição de pesquisadores para consultas, com supervisão do Instituto Dom Helder Camara (Idhec).

Por enquanto, a herança documental de dom Helder chega a 13.589 manuscritos, 3.255 correspondências, 2.780 blocos encadernados do programa "Um olhar sobre a cidade" (veiculado na Rádio Olinda) e 7.554 meditações, além de 290 cartas circulares do Concílio Vaticano II (série de conferências realizadas de 1962 a 1965), considerado o grande evento da Igreja Católica no século 20 e do qual ele fez parte. Há, ainda, 320 fitas VHS, 291 fitas K7 e 15 mil fotografias.

A recuperação do acervo de dom Helder Camara está prevista para começar em dezembro próximo, com prazo de execução de seis meses. “É um trabalho inédito, ninguém sabe com exatidão a quantidade de documentos e o conteúdo também é desconhecido”, afirma Célia Salsa, responsável técnica do projeto.

Leia mais no JC deste domingo (17)

 

Veja transcrição de uma das mensagens de dom Helder Camara para o programa de rádio Um Olhar Sobre a Cidade, veiculado pela Radio Olinda. acervo do Idhec.

Um Olhar Sobre a Cidade
Rádio Olinda, 2.4.1974
3ª feira

Meus queridos Amigos
Permitem uma sugestão fraterna? Por mais cheio que lhes ande a vida – por mais ocupada, mais apressada, mais atravancada que lhes esteja – descubram meios para rápidas escapadas, que lhes permitam encontros, mesmo de segundos, com a Natureza. Isto lhe fará um bem enorme e demandará, no íntimo de vocês, um pouco de paz para o resto do dia.
Tenham olhos para o nascer do sol. Já repararam que não há duas madrugadas iguais?
Por que jamais encontram tempo de olhar as árvores, mesmo de passagem, mesmo de caminho?... Elas são mestras de paciência: oferecem sombra, oferecem frutas, acolhem os pássaros, e, quase sempre, recebem pedradas da meninada e, não raro, acabam sendo cortadas, quando o terreno se valoriza. E como ensinam a renascer cada ano, com ânimo novo?...
Já notaram como a água é amiga, é irmã, e está sempre disposta a ajudar-nos de mil maneiras?...É tão bom um copo d’água fria quando se está com sede, que Cristo chegou a prometer uma recompensa eterna a quem mata a sede do próximo. E como é bom poder banhar-se, ou lavar as mãos ou os pés ... mas a água faz bem até ser vista: se passarem perto da praia, olhem o mar! Se passarem perto de rios, olhem as águas que descem mansas ou contemplem, um instante, lavadeiras que lavam roupas ou crianças que se banham e brincam na água.
Já tiveram tempo de contemplar a luz que vem do alto? ... A luz torna belas, transfigura, até as coisas mais simples: um caco de vidro, parece um brilhante...
Nunca se lembram do ar que nos cerca, nos protege, apagando, anônimo, prestativo?... Nem pensamos nele e, no entanto, sem ele nem poderíamos viver. Só damos importância ao ar, quando ele nos falta, no fim da vida, e caímos em agonia, à procura dele...
Reparem com que paciência a terra nos suporta. E nós a pisamos como se ela fosse nossa escrava e tivesse obrigação de carregar-nos. Nós rasgamos a terra, para plantar sementes ou abrir estradas... Um dia, em lugar de guardar-nos rancor, ela nos receberá em seu seio e nela, nossos corpos aguardarão a hora da ressurreição...
Abram os olhos. Descubram o que veem. Façam como as crianças que chamam atenção para tudo, como se fossem as primeiras a descobrir o que veem: “Olha lá!”
Tenham olhos descobridores. Não deixem que a rotina lhes embotem a vista. Um segundo de contemplação da Natureza, demandará paz sobre o seu dia inteiro!

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