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Textu@lidade
O menestrel da filosofia em sua Torre de Babel 27/03/2007 13h57
Na Europa medieval, o menestrel representava o poeta bardo cuja performance lírica referia à estórias de lugares distantes ou sobre eventos históricos reais ou imaginários. Embora criassem seus próprios contos, freqüentemente memorizavam e floreavam obras de outros. À medida que as cortes foram ficando mais sofisticadas, os menestréis eram substituídos por trovadores, e vários deles tornaram-se errantes, apresentando-se para a população comum, transformando-se assim em divulgadores das obras de outros autores. O escritor e poeta Nelson Saldanha apresenta-se, em seu livro A Torre de Babel e Outros Ensaios, como legítimo menestrel de literatura filosófica. Com este termo, pretendo demonstrar aos leitores como Nelson nos esclarece sobre temas tão atuais, como globalização e identidade nacional, valendo-se, para tanto, de conceitos filosóficos e literários como metafísica, hermêutica, fenomenologia, romantismo, classicismo, entre outros. Citando em sua obra autores como Spinoza, Spengler, Hegel, Shileiermancher e, especialmente, Ortega y Gasset, define sua linha de análise filosófico-literária. Notamos, porém, em seus ensaios uma explícita influência de dois grandes pensadores: Ortega y Gasset e Hegel.
Numa linguagem fluida e sem hermetismos, Nelson mistura a seu estilo literário inconfundível, posto que claro e profundo, reflexões sobre a condição político-cultural-econômica da América latina ("Oriente, Ocidente e América Latina", p. 140). No artigo "Torre de Babel e o neocantismo", o autor desenvolve, através da análise do quadro de Breughel, uma reflexão filosófica sobre o conflito entre natureza e cultura. Citando concepções do renascimento, da fenomenologia e dos positivistas e neopositivistas, conclui: a natureza física vai sendo destruída, enquanto que a natureza (enquanto essência) das coisas perde o resto de seu perfil. Os ambientes em que estão as decisões maiores parecem, hoje, cada vez menos naturais, no sentido das folhas e da madeira: o desenvolvimento é desmatador, se calcula com cifras e ignora os seres de carne e osso. Crescem desmesuradamente as populações e os edifícios, lenta catástrofe que nega os dados da história e despreza a memória das nações (p. 44). Em "O conceito da nação e a Imagem do Brasil", Nelson faz uma revisão histórica das idéias que perpassaram o conceito de povo e nação em nosso país; fala do eterno comparativismo do Brasil com os Estados Unidos, afirmando: A auto-imagem de nosso país veio, portanto, formando-se através de diferentes contextos internos e em face de padrões internacionais (o que é óbvio) também diferentes. (...) Sempre estivemos construindo e reconstruindo nosso ser nacional, e com ele nosso frágil sistema de poderes, cuja fragilidade se agrava com o eterno centralismo e com o invariável predomínio do executivo. Ao que conclui: Ao colocar o problema da auto-imagem e da identidade nacional, temos de perguntar se o Brasil se preparou, do século XIX para cá, para ser efetivamente uma nação uniforme (embora diversificada), uma nação com elites (porque, sem elites não se tem História) capazes de representar o povo e de ajuda-lo a ser nação: uma nação com um povo que efetivamente pese como elemento histórico.
Interessante ensaio do livro discute dois movimentos importantíssimos para formação de nossa literatura ocidental: o classicismo e o romantismo. Trata de suas classificações e a ubicação (onipresença) histórica e o contexto cultural em que surge a consciência histórica. E ao final de toda problematização conceitual, Saldanha afirma: Devemos entender o clássico e o romântico como duas diferentes concepções do mundo e do homem. O mundo como ordem estável, coonestando uma sociedade dada e estática; ou como um conjunto de estruturas instáveis e em constante reconstrução. O homem como ser surgido pronto, o homem com suas coisas e suas idéias, ou como um animal histórico, sujeito ás suas próprias invenções e buscando-se.
Outros dois artigos merecem aqui ser comentados: "Do Sagrado ao profano: "A Palavra na História" (p. 89) e "De nomes e de números" (p. 163). São ensaios sobre a palavra na História e também sobre a função e relevância dos nomes e números em nossa civilização. No primeiro, partindo de uma análise que inclui de conceitos teológico-bíblicos à hermenêutica, o autor fala de sua dessacralização: Mas não é a escrita, nem o livro, que dessacraliza a palavra. É a alteração dos contextos em que ela atua. A palavra é também ela e sua circunstância. Vale lembrar que a palavra, sendo expressão direta do espírito – em termos hegelianos falaria no "espírito objetivo’ – compartilha das duplicações que a ele ocorrem: o espírito como razão e como fé, como ciência e como arte, como norma e como crítica. Fala também do advento da imprensa e do início da secularização e da crítica leiga; e como a hermenêutica alterou a referência à palavra, tirando-a do território do sagrado e objetivo e pondo-a na compreensão. Citando Gadamer, Hegel, Wittigenstein, Heidegger, Ortega, Foucault, Derrida e Eco, ele analisa a relação do escritor com a palavra, trazendo para nós bonitas imagens em sua análise dos números, como a estatística enquanto "hermenêutica desidratada’: A gradativa invasão dos números, correlativamente vitória sobre os nomes, corresponde historicamente a dois processos: logo o da secularização e mais recentemente (dois séculos atrás) o do aumento das populações. (...) O mundo passou do domínio das grandes nações para o domínio das grandes empresas. O resíduo aristocrático que os nomes ainda possuem (nomes de gente, nomes de lugares e de doenças) tende a se perder dentro de fichas e de arquivos. A epistemologia dos números -, refiro-me aos números designadores de realidades humanas (a estatística, por exemplo), é uma espécie de hermenêutica desidratada. Dentro das organizações que há decênios dominam o mundo, a epistemologia dos números realimenta a implacável a ambivalente presença da tecnologia.
Entendendo que a metafísica trata de problemas sobre o propósito e a origem da existência e dos seres, podemos afirmar: Nelson é um metafísico com uma grande capacidade de comunicar suas reflexões de pensamento. Realizando especulações em torno dos princípios e das causas primeiras do ser, Nelson sai do relativismo para nos fazer entender os problemas mais prementes deste século.
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