Editorial JC: Debate além das escolas
Dados de acesso de crianças e adolescentes à internet reforçam a necessidade do envolvimento dos pais na adaptação à cultura digital no Brasil

A questão abordada com viés de tragédia na minissérie “Adolescência”, onde um garoto de 13 anos se envolve em comportamento violento por influência do tempo na internet sem a devida orientação dos pais, puxa para o seio familiar o compartilhamento da responsabilidade que não cabe, apenas, ao Estado ou à escola.
Se os prejuízos ao processo de aprendizagem, e até à socialização que precisa haver no ambiente escolar, são conhecidos e servem de alerta no mundo inteiro, é cada vez mais crucial o entendimento de que a tela onipresente custa muito mais que o desenvolvimento cognitivo – pode causar um dano profundo e permanente na formação da personalidade e na passagem à vida adulta, ao viciar e contaminar química e psicologicamente as crianças e adolescentes.
E nesse patamar, nem o Estado, nem a escola, são capazes – e nem lhes cabe – resolver o que os pais e responsáveis devem fazer. Sem fazer de conta que está tudo bem, que o sinal da época é assim, normalizando as perdas que ficarão nos jovens para a vida inteira. Segundo a pesquisa Tic Kids Online Brasil, mais de 90% dos indivíduos de 9 a 17 anos foram usuários frequentes de internet no país. A tendência é que esse percentual cresça, e que sejam cada vez mais as horas de tela na frente dos olhos nos próximos anos. A não ser que as instituições e as famílias ajam para reduzir essa epidemia silenciosa.
A virtualização da existência humana é tema da ficção, dos estudos acadêmicos e da realidade há alguns anos. Mas depois que as telas invadiram as escolas, os resultados empíricos mostraram os riscos da imersão da juventude em ambientes que os retiram da atenção física, roubando a curiosidade e a atenção para a apreensão do conteúdo de ensino. O que nem todos perceberam logo é que fenômeno análogo se dá em qualquer porção da vida, inclusive dentro de casa, em muitos casos, com a permissividade dos pais e responsáveis. De tal modo que a determinação do tempo de tela se impõe como requisito em vários lares, o que já é um avanço.
Até as habilidades de fala e de expressão pela linguagem podem ser comprometidas, devido à exposição de crianças mais novas às telas, conectadas ou não às redes mundiais de entretenimento e informação. Estima-se que, no Brasil, um terço das crianças com menos de 5 anos de idade passem pelo menos duas horas com a atenção voltada para as telas, por dia.
Imagine-se em relação aos adolescentes. Especialistas recomendam, além da limitação do tempo, a inclusão de atividades físicas na rotina, a cooperação dos pais como exemplos de comportamento desconectado, e a supervisão do conteúdo acessado. Os jovens podem manter a liberdade para navegar, jogar, se conectar. Mas seus responsáveis não podem abrir mão da autoridade inerente à responsabilidade da educação que é muito maior do que aquela obtida na escola.
Confira a charge do JC desta terça-feira (25)