Os recifenses e habitantes da Região Metropolitana, bem como de outras partes do estado, já sabem que os riscos da chuva vêm aumentando ao longo dos anos. Nada que não esteja sendo experimentado em variados lugares do Brasil e do mundo. Se os moradores já sabem, os governos e as instituições públicas também, e faz tempo.
No entanto, a rotina da gestão pública no país se sobrepõe à urgência do planejamento preventivo para algo cada vez mais recorrente e inevitável. Os ambientalistas alertam há décadas, os cientistas acumulam dados preocupantes, e a história recente, amplamente documentada pelos meios de comunicação e por arquivos pessoas da população, sinalizam para a tendência em pleno andamento: pode chover muito mais, a qualquer momento, como tem acontecido com frequência.
Os riscos da chuva aumentam porque a maior parte das promessas feitas pelos governantes, depois de cada temporal – ou de volume pluviométrico maior do que a média, como se repete feito mantra – não entram em prática antes da próxima chuva.
Mesmo que a força da natureza se demonstre irrefreável, há medidas a serem tomadas que podem minimizar os riscos, as mortes, os prejuízos e o sofrimento, sobretudo para as famílias de baixa renda, mais vulneráveis às trombas d’agua, embora fenômeno climático algum faça diferença entre classes sociais, como o incêndio florestal na Califórnia foi exemplo recente.
Pode ser impossível conter um volume de água que cai, em poucas horas, o equivalente a semanas ou à média esperada para um mês inteiro. No entanto, cada nova enxurrada as mesmas questões surgem: a drenagem nas cidades, a moradia em áreas de risco, a vulnerabilidade do sistema de energia, o caos no trânsito devido aos alagamentos, e o destino trágico de pobres e miseráveis que não têm a quem recorrer para sair do sufoco, mesmo que recebam alertas de emergência em seus celulares: para onde podem ir?
A ativação de esquemas de contingência para as chuvas – bem como para ondas de calor que também já começam a despontar como comuns – está atrasada no Brasil inteiro, inclusive em Pernambuco e no Recife. Dos governos, espera-se mais do que declarações óbvias de susto e atenção. Espera-se a compreensão da dimensão dos fatos, em uma época de transformação no clima do planeta, que exige do poder público o compromisso com uma postura de responsabilidade antecipada, bem como, da população, uma atitude de engajamento e colaboração para evitar maiores danos coletivos.
A tragédia no Rio Grande do Sul, no ano passado, que deixou Porto Alegre debaixo d’água, pode ter sido apenas um prelúdio do que pode acontecer em diversas cidades brasileiras. Nem a maior cidade da América Latina está preparada para lidar com as fortes chuvas das mudanças climáticas. Mas é preciso fazer muito, tudo o que for possível, para que a previsibilidade dos temporais não pegue, sempre, o Brasil no improviso.
Confira a charge do JC desta quinta-feira (6)