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Não é só uma gordurinha

A obesidade é uma condição crônica com forte impacto na saúde pública e requer tratamento continuado, como tantas outras doenças.....

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SÉRGIO GONDIM

Publicado em 29/11/2024 às 0:00 | Atualizado em 29/11/2024 às 10:17
Obesidade: seria importante que ocorressem debates entre líderes mundiais, não só sobre a fome, mas também visando a prevenção da obesidade - Andres Ayrton/Pexels

A fome continua sendo um grave problema no mundo, atestando a incompetência da humanidade. Nunca é tarde para tomar vergonha, reunir os líderes mundiais e discutir o assunto, mas que não seja só mais um encontro em nobres salões, com orçamento maior do que o que seria suficiente para alimentar milhares de pessoas.

É verdade que a fome já foi mais disseminada e, não faz muito tempo, os hospitais públicos no Recife contavam com grandes enfermarias destinadas às crianças com desnutrição primária grave. Hoje menos, mas em compensação houve aumento de leitos necessários para acolher os pacientes de todas as classes sociais com problemas relacionados à obesidade.

A produção em larga escala de alimentos calóricos, saborosos e armazenáveis eliminou a caça como um dos poucos meios de se obter proteínas gastando energia. Hoje pode-se receber uma bomba calórica sem sair da cama. Outras comodidades como automóvel, telefone, escritório, contribuíram para epidemia de obesidade e suas associações (diabetes com mais de 800 milhões de casos no mundo, hipertensão, alguns canceres, artrose, cirrose, cardiopatia). Não é só uma gordurinha e não envolve só sedentarismo e calorias. A obesidade é resultado de um complexo processo que envolve a genética, a cultura, sofisticados sistemas de comunicação no corpo humano que podem fazer com que, por exemplo, um peptídeo transmita uma informação errada ao cérebro determinando que adquira mais calorias. Tal complexidade faz com que o tratamento também seja difícil e, quando focado exclusivamente na fundamental mudança de hábitos alimentares e exercícios físicos, tem resultado sustentado apenas em uma minoria.

Com tantos danos à saúde, a dificuldade de obter resultados através da mudança de hábitos fez com que surgissem medicamentos ao longo da história, também com resultados pobres e/ou efeitos colaterais que não suportavam o uso. Na sequência, ficando cada vez mais gritante o impacto do problema sobre a saúde, a medicina partiu para ignorância e passou a indicar cirurgia que mesmo com seus contratempos, complicações e colaterais, quando bem indicada, pode salvar muitas vidas.

É interessante notar que quando uma pessoa corrige a obesidade, não sabe que deixou de morrer mais cedo, ou de fazer um transplante de fígado ou colocar uma prótese de quadril, mas se apresentar um efeito colateral, por menor que seja, o identifica de imediato e fica com a sensação de que o tratamento faz mal. Só é possível enxergar com clareza os benefícios da redução de peso quando são estudadas populações semelhantes, em grande número, submetidas ou não à tratamento. Tais estudos têm demonstrado benefício não só sobre o peso, mas vários outros objetivos como redução de morte cardiovascular, diabetes, hipertensão e artrose. O tratamento promove melhora da qualidade de vida e mais felicidade aferida por diversos escores validados.

A atual geração de drogas usadas no combate à obesidade tem invertido estatísticas. Induz perda de peso na maioria e tem perfil de segurança que possibilita o uso. A análise do impacto sobre diversas doenças tem sido positiva.

É verdade que aumentou o PIB de países produtores o que pode gerar comentários de que tudo gira em torno de dinheiro, mas o benefício tem sido tão claro que os governos estão passando a custear o tratamento, não porque são ricos e sim porque são espertos, depois de constatar a economia ao evitar tantos problemas médicos.

A obesidade é uma condição crônica com forte impacto na saúde pública e requer tratamento continuado, como tantas outras doenças. Como o tratamento não é simples e tem alto custo, seria importante que ocorressem debates entre líderes mundiais, não só sobre a fome, mas também visando a prevenção da obesidade. As mudanças são necessárias desde o pré-natal.

Sérgio Gondim, médico

 

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