PURIM – Porque é preciso continuar a dançar
Ficou como símbolo do 07 de outubro, o Festival de Dança "Nova", quando jovens israelenses bailavam até serem atacados, mortos ou sequestrados

JÁDER TACHLISTSKY
Acabamos de vivenciar o carnaval, uma festa popular que reúne cultura, alegria, uma verdadeira catarse popular que extrapola, e muito, as datas reservadas para sua celebração.
E, já na sequência, há outra festividade com características similares, que faz parte do calendário judaico: Purim. É uma festa referenciada pela narrativa bíblica da história da rainha Esther, na antiga Pérsia. Foi um período em que a maior parte do povo judeu encontrava-se vivendo sob domínio desse poderoso império.
O roteiro passa por um ministro do rei, Haman, que planeja executar um massacre contra o povo judeu. Uma sucessão de fatos faz com que Esther, uma jovem judia, ascenda à condição de rainha da Pérsia e interfira no cruel decreto que previa a eliminação desse povo.
Curiosamente, é a única passagem da Bíblia judaica em que o nome de Deus não aparece em momento algum no texto. Os sábios interpretam que Ele se encontra sempre oculto, trabalhando para que haja um desfecho favorável da história.
O que deveria ter se constituído em uma grande tragédia termina por ser revertido. Os judeus, com apoio real, e com o primo/tutor de Esther, Mordechai, alçado à condição de ministro do rei, defendem-se e saem vitoriosos.
Se não há comprovação histórica dos fatos relatados, o que importa é que essa narrativa bíblica penetrou no coração do povo, tornou-se memória coletiva construída. A cada ano, tudo isso é vivenciado na forma de uma grande festa com máscaras, fantasias, desfiles, músicas e danças, um verdadeiro carnaval.
A história judaica sempre foi marcada por muitas perseguições, massacres, exílios. Fatos dramáticos, que moldaram uma permanente sensação de insegurança no caminho deste povo. Haver cravado no imaginário popular um momento em que o poder estabelecido tenha saído da posição de algoz para o lugar de aliado, traz uma sensação de alívio e de esperança. Por sinal, faz parte do DNA judaico, a visão otimista de um futuro promissor, em que não mais haverá guerras e que todos os seres humanos reverenciarão o Criador.
Por ironia da história, milhares de anos depois, do mesmo território, o atual Irã, renasceu um moderno Haman. Na verdade, não está personificado em uma pessoa, mas em um regime: o dos Aiatolás, que pregam abertamente a destruição de Israel, o moderno Estado-nação do povo judeu.
Partiu do Irã, o planejamento, apoio logístico e financeiro, para os dramáticos acontecimentos de 07 de outubro de 2023, quando o grupo terrorista Hamas, adentrou o território israelense promovendo o maior massacre de judeus (e não judeus que estivessem no caminho), desde o Holocausto.
Naquele dia, materializou-se no presente, os planos do pérfido Haman, autor do terrível decreto da antiga Pérsia, de aniquilação dos judeus. O Hamas (que semelhança no nome) não diferenciou homens, mulheres, crianças, idosos. A intenção era o extermínio, não importando o método. Sem limites, matariam quantos lhes fosse possível. E assim o fizeram, até serem detidos.
Seguiu-se a dramática guerra que tanta dor e sofrimento causou a israelenses e palestinos, cujo eco reverbera até o momento.
Ficou como símbolo do 07 de outubro, o Festival de Dança “Nova”, quando jovens israelenses e de outras nacionalidades bailavam até serem atacados, mortos ou sequestrados. Dançavam pela paz, dançavam porque eram jovens.
Um dos lemas, desde então, na sociedade israelense tem sido: “Nós voltaremos a dançar”.
Os palestinos são parte do povo árabe. Judeus e árabes são povos semitas, com origens próximas. Compartilham de cultura e tradições que se interseccionam em diversos momentos da história. Possuem raízes que podem e devem se encontrar. E fazer brotar frutos de conciliação.
Ao anoitecer da próxima quinta-feira (13/03), terá início a festa de Purim. Celebrá-la com muita alegria não será desconhecer a tragédia vivenciada nos últimos tempos. Será, antes de tudo, não se curvar à barbárie. Será sinalizar que precisamos continuar a dançar. E acreditar na profecia bíblica, expressa por Isaias “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará ao lado do cabrito; o bezerro, o filho do leão e o animal adulto andarão juntos, e uma criança os conduzirá.”
Que mais rainhas Esther apareçam pelo mundo, protegendo aqueles que precisam. Que as pessoas eduquem seus filhos para a paz e para o respeito à diversidade da criação.
Que as máscaras não representem ocultar o que somos, mas reflitam nossa capacidade de se colocar no lugar do outro, compreendê-lo e exercitar, por um breve momento, sua identidade.
Que as fantasias espelhem nossos sonhos de construir um mundo de beleza e fraternidade.
Que a música transmita os sons da alegria e da concórdia. E que continuemos a dançar e, com a dança, construamos a coreografia do amor. Chag Purim Sameach! (Feliz Festa de Purim!)
Jáder Tachlitsky é economista, professor de Cultura Judaica e coordenador de comunicação da Federação Israelita de Pernambuco