O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega fez críticas à ideia de uma possível intervenção do governo Lula nos preços dos alimentos, após declarações sugestivas do ministro da Casa Civil, Rui Costa, de que o governo interviria para tentar reduzir os preços dos produtos alimentícios no Brasil.
O ministro da Casa Civil chegou a se corrigir, substituindo o termo "intervenção", utilizado em sua fala, por "ação". Além disso, na quinta-feira (23), o atual Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, descartou a ideia de intervenção e chamou as especulações sobre uma possível medida de controle de preços de "boataria que interessa a algumas pessoas".
Ainda assim, para Maílson da Nóbrega, que foi ministro no governo José Sarney, a situação já estava “feita” depois da fala de Rui Costa. Em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, nesta sexta-feira (24), ele comentou sobre os possíveis impactos de uma medida como essa.
Para Maílson, o uso de "intervenção" na fala de Rui Cosa foi um "ato falho", mas revelou um desconhecimento de como funciona o sistema de preços no Brasil e da complexidade que envolve a cadeia produtiva de alimentos.
O ex-ministro considera que a ideia de controlar os preços dos alimentos surge da frustração do governo com o aumento desses preços, que contraria as promessas feitas na campanha eleitoral de Lula, como a de tornar a carne, ou a ‘picanha’, mais acessível para a população.
“Está na cabeça do pessoal do governo achar um jeito de reduzir o preço dos alimentos, porque o presidente Lula prometeu picanha barata para todo mundo e não conseguiu”, afirma.
Maílson diz que Lula não faz cálculo adequado e que o governo tem uma visão imediatista ao lidar com a inflação dos alimentos:
“Ele [Lula] não faz cálculo, não pergunta como funciona, ele [o cálculo] sai da cabeça dele. Então, saiu da cabeça dele que o alimento está criando problema, está desmentindo as promessas de campanha, a oposição começa a explorar essa situação, e agora tem que dar um jeito de baixar o preço dos alimentos”.
Tentativas fracassadas
Além disso, o ex-ministro enfatiza que as tentativas de controlar preços no Brasil no passado falharam, desde o congelamento na época do governo Sarney, quando ele era ministro da Fazenda, até outras medidas que não conseguiram conter a inflação.
“Os preços de alimentos variam por várias circunstâncias e estão totalmente fora do controle do governo. Por exemplo, a taxa de câmbio”, explica Maílson, apontando que os preços dos produtos alimentícios no Brasil são influenciados por fatores externos, como o dólar e os choques de oferta no mercado internacional.
Segundo Maílson, para controlar o preço de itens como feijão, arroz e soja, as chamadas commodities, seria necessário um controle rígido de toda a cadeia produtiva, o que seria impraticável e altamente impopular, principalmente entre os produtores.
"Política populista"
Outro ponto criticado por Maílson da Nóbrega é o que ele considera uma priorização da comunicação sobre a economia. Ele acusa o governo de estar mais focado nas eleições e em agradar a população do que em adotar políticas econômicas rigorosas e necessárias para garantir a estabilidade fiscal do país.
Para ele, isso pode ter graves consequências para o futuro econômico do Brasil, principalmente quando a área de comunicação social começa a prevalecer sobre as decisões econômicas e fiscais.
Em sua análise, o ex-ministro afirma que essa dinâmica reflete a lógica de um governo populista, que tenta resolver problemas complexos com medidas superficiais e imediatas.
“É típico de governo populista, ou seja, está dando errado, não é porque eu errei, está dando errado porque não disseram como é que funciona”, critica Maílson.
O desafio da gestão fiscal
Para o ex-ministro, o verdadeiro desafio do Brasil não está no controle de preços, mas na restauração da confiança fiscal e na adoção de medidas econômicas ‘corajosas’ que permitam ao país enfrentar sua crise fiscal.
“O governo tem que propor medidas duríssimas, corajosas, de devolver ao país a capacidade de gerir o orçamento, de ter um sistema fiscal confiável, de ter um sistema fiscal que funcione”, diz.
Como medidas, o ex-ministro defende o fim da vinculação do salário mínimo com a aposentadoria e a necessidade de uma reforma previdenciária que aumente a idade de aposentadoria e elimine os incentivos ainda presentes no sistema atual.
“Qual é a chance de isso acontecer neste governo? Zero”, afirma.
Em sua crítica ao sistema fiscal brasileiro, o ex-ministro pontua que direitos assegurados pela Constituição de 1988 estão vinculados a uma política fiscal que prioriza o gasto público sem avaliar adequadamente as prioridades orçamentárias.
Para Maílson, o Brasil “não vai dar certo” com a manutenção desses “gastos”. “A criação de benefícios para servidores públicos, para aposentados, para pensionistas, gastos que se tornam eternos, isso tem que ser revisto”, pontua o ex-ministro.
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