PREÇO DOS ALIMENTOS | Notícia

Fernando Castilho: Mudanças para importação de alimentos não impactam inflação, mas sinalizam alguma reação

Anúncio sobre imposto de importação vai levar tempo para chegar nas prateleiras de supermercados, devido a prazos de negociação com países produtores

Por Fernando Castilho Publicado em 06/03/2025 às 21:10 | Atualizado em 07/03/2025 às 9:56

Lembra daquela expressão de que às vezes é preciso tomar alguma atitude para mostrar uma ação que não vai surtir qualquer efeito, mas passa a ideia de que se faz alguma coisa? Esse parece ser o objetivo do governo federal ao apresentar uma lista de eliminação de alíquota de modo a aumentar a concorrência e, por consequência, provocar uma redução na pressão dos preços dos alimentos.

Para começo de conversa, é importante saber que é pouco provável que alguém se dê ao trabalho de, por exemplo, importar café, açúcar e milho, salvo se for alguma coisa bem específica, como cafés especiais da Colômbia ou algum tipo de milho especial para consumo específico, já que não dá para imaginar que o mercado tem café comum mais barato que o nacional e que dá para comprar milho para ração.

Certo. Zerar a atual alíquota de 9% do azeite pode dar um refresco nos preços. Mas o problema é que, globalmente, o preço do azeite de oliva dobrou em um ano. Não pode-se pensar que alguma rede de supermercados possa trazer mais massas da Itália do que já acontece.

Mas não dá para achar que o consumidor vai passar a consumir massas de grano duro com a eliminação de 14,4%. Ou que a oferta de biscoitos com menos 16,2% possa ser impactante. Até porque o Brasil exporta as marcas de biscoitos, com marcas mundiais.

GESTO DO GOVERNO

Mas é um gesto. Um sinal de que está fazendo alguma coisa. Mas é difícil entender por que não são zeradas as alíquotas sobre trigo, que o Brasil regulariza, e sobre o qual existe uma alíquota de 9%. O Brasil é um dos maiores importadores globais de trigo. Em 2024, o país importou 1,63 milhão de toneladas de trigo, um aumento de 16% em relação ao ano anterior.

O que explica a declaração do vice-presidente Geraldo Alckmin que disse que "nós estamos num momento em que você reduzir o imposto de importação ajuda a reduzir o preço. Nós não vamos, não está substituindo, você está complementando".

IMPORTAÇÃO DE ALIMENTOS

O vice-presidente também anunciou outras medidas, como estímulo e prioridade para a cesta básica no Plano Safra e fortalecimento dos estoques reguladores pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Bom, desde 2020 que o Brasil não tem estoque regulador para nada. Ironicamente, porque o Brasil se tornou um exportador de classe mundial e não precisava ter estoque, já que suas safras eram frequentes.

Mas o governo Lula entende que precisa fazer alguma coisa, embora o receituário lembre o tempo em que o Brasil importava milho. E que o país importava alimentos.

Por exemplo, numa negociação, o então presidente da Abras e do grupo Bompreço, João Carlos Paes Mendonça, defendeu e obteve do então ministro da Fazenda, Dilson Funaro, autorização para importar cerveja porque havia faltado produto e, na sua opinião, o consumidor precisava de cerveja. O ministro autorizou.

Foi quando os brasileiros começaram a beber Budweiser e Quilmes, iniciando uma preferência por cerveja de qualidade que hoje só faz crescer o mercado de cerveja de puro malte.

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