Igor Maciel: O "duplipensar" nas manifestações e o que deve mesmo preocupar Bolsonaro
A ausência de políticos é o que chama atenção. Há quem diga que sempre é possível construir algo com amor ou com ódio, mas a indiferença é mortal.

George Orwell criou dentro do romance “1984” o conceito de “duplipensar”. No enredo, seria a capacidade, incentivada pelo partido que mantinha sob força o poder, de ter na mente dois pensamentos contraditórios entre si.
Por exemplo, ainda usando o texto de Orwell, você percebia a ração de chocolate ser reduzida, mas seguia acreditando que ela foi aumentada, porque era essa a informação divulgada pelo partido.
No regime totalitário imaginado pelo escritor, o duplipensar era o principal alicerce e essencial para a manutenção do poder. O que isso tem a ver com o Brasil de hoje? Tudo.
Analgésico
Dois brasileiros podem olhar para a mesma foto, de uma manifestação nas ruas por exemplo, e um vai dizer que o espaço estava vazio enquanto o outro vai afirmar que havia três milhões de pessoas.
O duplipensar, sim ele existe realmente, apoia-se na necessidade que o ser humano tem de fugir de uma dissonância cognitiva. O encontro entre duas crenças antagônicas na mente de um indivíduo deve ser motivo de sofrimento para qualquer um, é natural.
Acreditar pela vida inteira em algo e depois ser impactado com a descoberta de que aquilo não era verdade causa dor emocional. O duplipensar funciona como um analgésico.
A foto
Um exemplo prático é a última manifestação bolsonarista que, através de fotos aéreas, um programa da USP com inteligência artificial disse ter 18 mil pessoas, o Datafolha disse ter 30 mil e a Polícia Militar do Rio de Janeiro disse ter 400 mil. A diferença é de mais de 2000% de uma estimativa para outra. Mas você sabe qual a foto que realmente importa nessa discussão? Nenhuma. A foto não importa realmente.
Olhar
O duplipensar, nesse caso, faz com que você sempre tenha duas informações contraditórias sobre um mesmo fato e acabe aceitando apenas aquela que é menos dolorosa para você, que não vai lhe causar dissonância.
Um apoiador de Bolsonaro olha a foto (primeira informação) e também recebe o número de 400 mil participantes (segunda informação). Já alguém que seja contra Bolsonaro vai receber a mesma foto, mas com o número de 18 mil pessoas. Os dois, em seguida, já voltam para a foto com olhos diferentes.
Ridículo
Imediatamente o bolsonarista vai olhar o volume de cabeças e concluir que, conforme ele esperava, havia uma multidão no local abraçando o líder que ele também gostaria de abraçar. Já o antibolsonarista olhará para a foto, de pronto, buscando espaços vazios e "confirmará" que só havia 18 mil nas ruas.
Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência vai perceber, pelo que foi explicado aqui, o quanto é ridículo e infértil quando esses dois grupos começam a discutir se havia mais ou menos gente na manifestação. Nenhum dos dois lados vai ganhar na troca de argumentos, todos irrefutáveis, pelas redes sociais.
Apoio
O que é palpável, realmente, é o apoio “profissional” no evento. Este sim foi uma tragédia. Bolsonaro está num momento crucial para sua sobrevivência política.
Ele pode ser condenado e preso ainda este ano e tem deixado claro para os aliados que só vai sobreviver com apoio político e popular. Mesmo assim, dos 13 governadores eleitos declarando apoio a ele em 2022, somente quatro estiveram na manifestação de domingo (16).
Da mesma forma, cerca de 40 deputados federais estiveram presentes no ato. Em 2023, os deputados eleitos mais fiéis ao bolsonarismo eram quase 200. E no Senado foram 16 senadores eleitos com proximidade ao bolsonarismo, mas somente nove estiveram na manifestação.
Indiferença
O PL, partido do ex-presidente, tem 98 deputados. A verdade é que a maioria não foi ao ato. Sem contar com os apoiadores do Congresso que estão em outros partidos como União Brasil, PSD, PP e Republicanos.
Essa baixa adesão é o que mais chama atenção no evento bolsonarista. Não faltou apenas povo. Os políticos também faltaram e isso, somado ao momento crucial em que o ex-presidente está para ser condenado e preso, dá um indício muito forte de abandono.
Há quem diga que sempre é possível construir algo com amor ou com ódio, mas a indiferença é mortal.