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Recife - 10.02.10

Aleatória

Envelhecer é poder

Publicado em 04.02.2010, às 08h34

Certamente a melhor parte de envelhecer é poder fazer tudo o que der na veneta, sem sofrer as consequências
Certamente a melhor parte de envelhecer é poder fazer tudo o que der na veneta, sem sofrer as consequências

A parte boa de envelhecer não deve estar na sabedoria adquirida, tampouco nas histórias que se coleciona para contar para os netos. Não está nos olhinhos miúdos, cercados de rugas, nem nos cabelos brancos – às vezes lilases – ou mesmo nos sapatinhos de tecido macio. A graça não é andar de ônibus sem pagar, nem horrorizar as pessoas chacoalhando a prótese dentária pela boca. Pode ser que a graça esteja em encher-se de talco, em dar beijos propositalmente melados e manchar as bochechas das crianças com batom vermelho-sangue. Mas certamente a melhor parte de envelhecer é poder fazer tudo o que der na veneta, sem sofrer consequências. A explicação, com exemplos, vem logo abaixo.

Uma pessoa que vive o bastante para conseguir ganhar o rótulo de “velho” costuma, na maioria das vezes, receber outros títulos. Na maioria das vezes, associa-se “velho” a “frágil”. Claro, que para casos de desamor e abandono, vem também o “estorvo”, “peso morto” e outras coisas horríveis que acontecem sim, por aí. Basta ir ver nos abrigos. Tem um monte de gente abandonada pelas famílias. Mas aqui estamos falando daqueles danadinhos, que vivem muito bem, e que por trás daquela máscara de velhinho (a) cheio de candura e fofurices, há um ser humano que acha que pode tudo. Só porque é velho.

E em poder tudo, o que preferem é dizer coisas inconvenientes. Principalmente as mulheres. Chamam-te de gorda sem pestanejar. E nem se dão o trabalho de achar eufemismos como “forte” ou “bem fornida”, a palavra é gorda mesmo, sem dó nem piedade. Se alguém tem a pele marcada pela acne, nada de fingir que não viu. O comentário é feito em alto e bom som, de preferência, na frente de muita gente: “Que pele horrível”. É quase como crianças que não sabem o que dizem. Mas elas sabem. Tiveram muito tempo para aprender. É sacanagem mesmo. Elas podem. Quem vai responder à altura e correr o risco de ser visto destratando uma senhorinha de chemisier e anáguas?

Quem vai responder à altura e correr o risco de ser visto destratando uma senhorinha de chemisier e anáguas?

Já os homens preferem inconveniências mais físicas. Flatular na sala com visitas é pinto. E se for visita de cerimônia, melhor ainda. Aí vem as piadas imorais e comentários sobre antigos bordeis e casas de tolerância por onde andavam. Será que andavam mesmo? Tem ainda os que cospem. Não é falar cuspindo, é cuspir no chão. Flup! Lá vai a cusparada, bem na alcatifa da sala. Da sua sala. Sim, isso existe sim. Já aconteceu. E os tarados? Para eles, isso de dar cantadas no meio da rua é para meninos. Quem é velho pode patolar a enfermeira. Quem ousará reclamar? De um velho? É como bater em um cara de óculos.

E para ambos os sexos, existe a memória, a audição e a visão seletivas. Pode-se simplesmente fingir que não reconhece aquela sobrinha chata. Quando alguém começa a falar que pudim de leite moça tem sim açúcar, é dizer que não ouve até que o pobre coitado canse e desista de repetir. As formiguinhas entre os azulejos são visíveis o bastante para render horas de implicância com a faxineira, mas o controle remoto, não. Depois de tudo isso, rir por dentro desse povo que, por ainda ser jovem, acham que tudo podem. Ser velho deve ser poder rir, justamente por saber como a piada acaba.

*Antes que me enviem dezenas de mails reclamando e me chamando de insensível, já me defendendo. Só para situar, vou logo dizendo que convivo com uma pessoa que estuda o envelhecimento e praticamente cresci ouvindo, vendo e participando da construção de palestras, aulas e discursos sobre gerontologia. Sim, eu sei que vou envelhecer. E tenho planos maquiavélicos de como gozar do meu direito de ser uma velhinha louca. De preferência com uns 30 gatos, que é para dar trabalho aos vizinhos e ao CVA.

* Esta coluna eu dedico para os velhinhos da minha vida. Para os estão por aqui, e para os já estão cuspindo no chão do Céu.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do JC ONLINE

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ANA QUITÉRIA é jornalista, cineasta e escreve às quintas. anaquim@gmail.com

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