
Tenha um diário. Não daquelas agendas adolescentes onde se colava (ainda colam?) papéis de bombom, band-aids e fotos de artista. Não é uma agenda para mostrar para amigas e esconder dos meninos. Falo de um diário sério. É preciso ser adulto para ter um diário sério. Não me refiro também a uma lista de compromissos. É preciso viver para ir além dos compromissos.
No diário sério é preciso escrever coisas importantes. Não necessariamente acontecimentos, podem ser sentimentos e até aquilo que não aconteceu. Possibilidades. Para o mal ou para o bem. O diário não precisa ser de papel: pode ser uma conta de email secreta, cujo acesso fique restrito só ao dono. E aos funcionários do provedor, que nada me convence que esse povo não fique lendo os mails alheios.
Neste diário não é necessário escrever todos os dias. Podemos então mudar o nome de diário para livro de memórias. Mas é que diário é uma palavra só e fica mais fácil. Neste diário escreve-se quando se tem vontade, quando não há mais a quem recorrer seja por que as pessoas já não mais se interessam, seja porque o assunto é íntimo demais até mesmo para o analista.
A senha ou a chave para entrar neste diário deve ser aquela de sempre, para que se possa acessar as lembranças de maneira rápida. Num clique, ou num folhear de páginas, um mergulho no passado, a recordação de sensações até o momento perdidas nas nuvens espessas do tempo e da cabeça, que pensa tanto no futuro e nas coisas do mundo - do trabalho, das contas, do supermercado - que nem sempre se apercebe que viveu tanta coisa, que existem tantas histórias esperando para serem contadas. Ou não. Algumas só cabem ali, naquele espaço, naquele espelho, onde os caracteres refletem um ser que só aparece nesta hora tão sua, longe do escrutínio dos outros, estas formas de vida tão distantes, apesar de tão à cerca.
Comece o diário e deixe maturar. Não leia ainda o que for escrevendo. Se agüentar, espere uns seis meses. Se tiver paciência, um ano. Depois leia. Apavore-se. Emocione-se. Chore de novo. Recorde daquela viagem. Lembre do que disse. Do que ouviu. Impressione-se em como a vida pode mudar, em quantas voltas o mundo deu desde aqueles momentos em que aquelas palavras foram escritas. Ria das situações risíveis e ria ainda, ao perceber que aquilo que parecia o mais caro desejo, na verdade não valia muito o tempo dispensado. Sinta uma pontada na boca do estômago quando ler sobre um amor que não deu frutos, que – se não natimorto – acabou quando ainda podia ter vivido mais. Alegre-se por agora estar livre, ou ainda se estiver vivendo uma nova história, oxalá mais feliz e eterna.
E se não gostar do que leu, mude o futuro. A história é sua.
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