“Senhor Gorbachev, derrube este Muro!”, exclamou, em 1987, na dividida Berlim, o presidente americano, Ronald Reagan. Aconselhou o último secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev, a pôr abaixo a barreira de concreto de 3,6 metros de altura e 155 quilômetros de comprimento que dividia a capital alemã desde 1961 – o símbolo da Guerra Fria, de um planeta rachado entre EUA e URSS, capitalismo e socialismo, democracia e ditadura do proletariado. Dois anos após a célebre frase, o mundo assistiu, atônito, em 9 de novembro de 1989, à queda do Muro de Berlim. Vinculada ao discurso, surgiu a ideia de que os americanos lideraram a derrubada. Duas décadas depois, especialistas dão um mergulho mais cuidadoso na história para desmontar o “mito” dos EUA emancipadores. Desvelam que o processo se deu de dentro para fora. E elucidam que as primeiras marretadas foram dadas pelos vizinhos do Leste Europeu. É o que conta a série de três reportagens sobre os 20 anos da queda do Muro, que começa neste domingo.
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“Em todo o reino comunista, a Hungria era o lugar a ser observado. Foi lá que a primeira centelha verdadeira da revolução se acendeu – não por seu povo, na forma de um levante popular, mas por um pequeno grupo de bucaneiros, não mais que meia dúzia de pessoas, que decidiu acender o pavio num barril de pólvora que explodiria o mundo comunista. É deles a grande história não contada de 1989.” As palavras de Michael Meyer, jornalista americano que viu de perto o colapso do bloco comunista e a queda do Muro de Berlim, dão a dimensão da história. Em seu recém-lançado livro 1989 – O ano que mudou o mundo (Zahar, 247 páginas), o autor lança nova visão sobre o fim da parede que dividia a capitalista República Federal da Alemanha (RFA), sob influência dos EUA, e a socialista República Democrática Alemã (RDA), de domínio soviético. Meyer, correspondente da Newsweek no Leste Europeu durante o desfecho da Guerra Fria, avalia como vital a atuação de forças dissidentes nos países do bloco comunista. E, se o Muro de Berlim era a metáfora do mundo bipolar, os húngaros foram responsáveis pelas primeiras marretadas.
Miklós Németh. Nome e sobrenome relegados por 20 anos e reescritos no centro da história. Aos 40 anos, em 24 de novembro de 1988, tornou-se primeiro-ministro da Hungria. O líder do Partido Comunista húngaro seria, ironicamente, o homem que faria o socialismo ir abaixo no país. Németh e sua trupe de camaradas reformistas davam largada rumo a uma nova ordem. Dono de um instinto subversivo, atuou em segredo com capitalistas, sobretudo da Alemanha Ocidental. Vislumbrou desfolhar a Cortina de Ferro e adentrar o Ocidente. Exímio articulador, o fez sem sangue, sem alarde.
Em pouco tempo no poder, Németh criou um mercado de ações, aprovou leis estimulando negócios privados, cortou subsídios das estatais e adotou o livre mercado. Era um comunista agindo como capitalista, contrariando as verdades de seu partido, de seu universo. O novo governo permitiu a organização de partidos políticos independentes. Como isso era proibido pela URSS, eles foram registrados como clubes ou movimentos. Nascia uma oposição, à margem do princípio de partido único. Uma imprensa livre também surgia. O premiê era tão radical quanto silencioso. “Németh era um homem quieto, um tecnocrata, um economista que passou um ano em Harvard e jogava tênis com o embaixador americano. De ternos sóbrios e aparência de banqueiro, seus modos suaves escondiam uma firmeza interna”, descreveu Meyer em seu livro.
A sede de mudanças – no início mais de Németh e seu grupo do que do próprio povo – esbarrava no medo da repressão. Num passado não muito distante, em 1956, os húngaros já haviam realizado um grande protesto contra o regime stalinista e o controle da URSS. A resposta soviética, contudo, foi sumária e violenta. O Exército Vermelho invadiu Budapeste para esmagar os manifestantes. Resultado: 2,5 mil húngaros mortos. Em março de 1989, Németh teve reunião com Mikhail Gorbachev, aquele que iniciara a reabertura da União Soviética através da glasnost (transparência política) e da perestroika (reestruturação econômica). O líder húngaro queria saber se estava indo longe demais com suas reformas. Falou sobre o desejo de convocar eleições livres em breve. Ao contrário do que esperava, Németh encontrou um Gorbachev zangado. Chegou a temer ser preso. Então, foi novamente surpreendido: o soviético, em tom amistoso, afirmou-lhe que cabia aos húngaros decidir em que direção seguir.
O passo decisivo foi a reabertura da fronteira da Hungria com a Áustria, uma cerca de 246 quilômetros, em 2 de maio de 1989, seis meses antes da queda do Muro de Berlim. Aquele fato catalisaria a transformação no Leste Europeu e na Alemanha. O temor do governo da RDA era que turistas provenientes da Berlim Oriental, em suas viagens de verão, tomassem a Hungria e, de lá, invadissem a RFA. Németh, para conter a fúria dos líderes da RDA, indignados com a decisão, assegurou que a fronteira continuaria patrulhada e que não deixaria os alemães orientais fugirem. A garantia, no entanto, não passou de “uma resposta diplomática”, segundo o próprio Németh. Aquele buraco na Cortina de Ferro seria o dreno para a gente insatisfeita da RDA. Estima-se que mais de 50 mil tenham saído da Alemanha Oriental pela fronteira austro-húngara. Pequena e, talvez por isso, subestimada, a Hungria desafiou e triunfou.
A Hungria foi o lugar onde a primeira pedra do Muro de Berlim foi retirada
“A Hungria foi o lugar onde a primeira pedra do Muro de Berlim foi retirada”, admitiu o chanceler da RFA, Helmut Kohl, em 1990, após a reunificação alemã. “Impressiona a velocidade com que esses regimes implodiram, e a Hungria é um exemplo clássico disso”, avalia o geógrafo Jan Bitoun, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “O que os húngaros fizeram foi além da própria Hungria. Eles derrubaram o comunismo por vontade própria. Depois, tudo foi mudando de uma vez. No final, essa onda foi para a Alemanha”, assinalou Meyer em entrevista por telefone ao Jornal do Commercio.
Assim como a Hungria, a Polônia vivia grave crise. O Solidariedade, primeiro movimento sindical não comunista em um país do bloco soviético, criado em 1980 por Lech Walesa para ser instrumento dos trabalhadores insatisfeitos, foi proibido de funcionar um ano depois, por lei marcial declarada pelo general Wojciech Jaruzelski. Passou a atuar na clandestinidade. O descontentamento do povo decorria do congelamento dos salários e aumento dos preços dos produtos. A cada manifestação, os grevistas bradavam: “Não há liberdade sem Solidariedade!”
Ciente de que o momento exigia mudanças radicais, em 1989 Jaruzelski ousou: convidou o Solidariedade para se sentar à mesa de negociações. A primeira reunião ocorreu em fevereiro. O mesmo homem que anos antes esmagara o sindicato precisou recorrer a seu inimigo mortal para tentar resolver os problemas da nação. E mais: permitiu que o Solidariedade participasse das eleições parlamentares, a serem realizadas dentro de poucos meses. A votação, em 4 de junho, resultou na vitória do Solidariedade. Walesa – que havia conquistado o Nobel da Paz em 1983 – se elegeria presidente. “Houve um momento em que um terço da população polonesa era sindicalizado no Solidariedade. Não é tão simples esse tipo de consciência atingir uma margem tão grande do povo. Isso demonstrava o descontentamento e a vontade de mudar aquele quadro de autoritarismo”, explica a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo (USP).
“A saga de 1989 não teria acontecido sem décadas de lutas que os poloneses promoveram clamando por mudanças”, diz Meyer no livro. Mais um país do Leste Europeu contribuía para o colapso do bloco comunista. A Polônia também dava sua marretada no Muro.
» Colaborou Wilfred Gadêlha