Navegue por aqui »
Max: 29º Min:22º
Recife - 11.10.2008
 
   
10 anos
 Celebridades
 Cinema
 Colunas
 Espaços culturais
 Exposições
 Galerias
 Linkteratura
 Museus
 Shows e festas
 Teatro | Dança
 Notícias
PARCEIROS
 Achei Cifras
 Bumba na Suíça
 Café Colombo
 Cinemascopio
 Cyberartes
 Paralamas Big Bang
 Praia Certa
 Quinteto Violado
 Raízes da Tradição
 Tu visse?
 Virtuosi





 

 

 

 
  
 .Colunas
.Home / Cultura
Aumentar Diminuir Imprimir Enviar por E-mail Comentar


Toques digitais

A misteriosa rota do sucesso
Publicado em 07.08.2008, às 14h12

JOSÉ TELES é crítico musical do Jornal do Commercio

São misteriosos e inescrutáveis os caminhos de uma música até o sucesso. Os exemplos de canções esnobadas que se tornaram clássicos contam-se às centenas. Over the rainbow (Harold Arlen/E.Y.Harburg), um standard do repertório pop internacional, tornou-se a assinatura musical de Judy Garland, que a canta nas cenas iniciais de O Mágico de Oz. O olho clínico (ou ouvido) dos executivos da MGM não estavam muitos aguçados. Eles insistiram para o diretor Victor Fleming excluir a cena. Achavam que o andamento lento da música quebrava o ritmo do filme. Não quebrou.

Em cinema isto é muito comum. Everybody's talking, de Fred Neil (falecido em 2001) foi executada, em números de 2006, 6,7 milhões de vezes. Com esta única composição, Neil sustentava 13 filhos e pagava duas pensões alimentícias. A canção foi composta por ele, às pressas, em 1966, para completar o repertório de um disco que estava gravando, e entrou por acaso na trilha de Midnight cowboy (1969), de John Schlesinger, com o pessoal duvidando de sua eficiência para colorir a trama, cuja música-tema havia sido encomendada a Bob Dylan, que não a entregou a tempo (Lay lady lay, seria a canção de Midnight cowboy). Outra que todo mundo não queria nada com ela, é um dos maiores sucessos do cinema em todos os tempos, Love is a many splendored thing (1955), de Samy Fain e Paul Webster, feita para o filme homônimo (em português Suplício de uma Saudade). Muita gente boa se recusou a gravá-la, entre ests Doris Day. A canção acbou ficando com o grupo vocal Four Aces.

Na sessão de gravação de Asa branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), os músicos do regional de Canhoto quiseram saber de Luiz Gonzaga a razão de ele, já com tantos sucessos, cismar de gravar uma cantiga de cego. Chegaram a acender velas e fazer trenzinho pelo estúdio, cantando a lamuriosa canção, para tirar onda com Gonzagão. Os exemplos na música popular brasileira também são fartos. Sílvio Caldas, dotado de um faro apurado para o sucesso, recusou Mamãe eu quero (Jararaca/Vicente Paiva). Carmem Miranda gravou, e a música é até hoje tocada no mundo inteiro. Carcará (João do Vale e José Cândido) foi esnobada por Luiz Gonzaga e Nora Ney. Nara Leão cantou no show Opinião, mas foi Maria Bethânia que fez a fama com o baião que fala desta ave predadora, metáfora para os tempos que então se viviam no país.

O Rei Roberto com suas idiossincrasias religiosas simplesmente declinou de gravar a belíssima Se eu quiser falar com Deus, que Gilberto Gil compôs especialmente para ele (Roberto gravaria mais tarde uma inócua Quando eu quiser falar com Deus). Rei da canção de outra época, Chico Alves só perde em sucesso do rádio para Roberto Carlos, mas, foi não foi, marcava bobeira. Marcou quando Lamartine Babo lhe ofereceu a marchinha O teu cabelo não nega. Preferiu gravar a hoje obscura Marchinha do amor. Chico Alves negou-se a gravar também a antológica Agora é cinzas (Bidê/Marçal), que foi pega por Mário Reis, e tornou-se um clássico do samba. Pior aconteceu com uma das maiores canções da MPB em todos os tempos: Carinhoso (Pixinguinha/João de Barro). O reincidente Chico Alves não se interessou pela choro-canção. Carlos Galhardo concordou em grava-la, mas no dia de ir pro estúdio deu o bolo. Orlando Silva segurou a música, e fez com ela possivelmente o 78rpm mais importante da MPB, com Carinhoso de um lado, e Rosa (Pixinguinha/Otávio de Souza) no outro.

São mesmo estranhas a sendas do sucesso. (I can't get no) Satisfaction, (1965) criada em cima de um riff de guitarra, que Keith Richard tomou emprestado a Dancing in the streets, de Martha and the Vandellas, por pouco não ficou escondida no meio do álbum Out of four heads. Keith não a considerava boa o suficiente para ser o lado A de um compacto dos Rolling Stones. Ele nem sequer gostou do riff da guitarra (um dos mais famosos de toda história da música pop), preferia um naipe de metais. Mais ou menos o que aconteceu com Monday Monday, um dos clássicos dos anos 60, com The Mamas and the Papas. Além de John Phillips, autor da canção, ninguém do grupo queria gravar a música, que foi primeiríssimo lugar nas paradas do mundo inteiro em maio de 1965. Este negócio de não simpatizar com uma música teria deixado de lado muita coisa boa, não fosse a insistência dos autores.

Bridge of troubled waters, é considerada uma das mais perfeitas canções de Paul Simon, composta quando ele fazia dupla com Art Garfunkel, que se recusou a cantá-la. Gravou a contragosto, e a música se tornou sua assinatura musical. Simon, anos depois, confessou que se arrependeu de ele mesmo não ter gravado Bridge over troubled waters, que muita gente pensa ser uma composição de Garfunkel. Em tempos mais recentes (ma non troppo), outro exemplo curioso de uma música que não era pra emplacar mas acabou emplacando foi Like a virgin, de Billy Steinberg e Tom Kelly, que sedimentou a carreira de Madonna. A música nem foi composta para Madonna, mas para ser cantada para um cantor. Steinberg e Kelly eram compositores profissionais, e o diretor artístico da Warner foi à casa deles ouvir suas mais recentes criações. Like a virgin (Igual a uma virgem_ não lhe pareceu soar bem. Madonna achou que soava e, certamente, nunca imaginaria que um dia no Brasil a canção receberia uma versão trash da banda Calypso.

Por vezes, o próprio compositor não saca a magnitude do que criou. Tom Jobim em 1972, deu ao pessoal do semanário O Pasquim uma canção inédita para a série de Disco de Bolso, que o jornal havia bolado (pioneiro em venda de discos em bancas de revista), um compacto, que trazia de um lado um compositor consagrado, e no outro um iniciante. Tom Jobim entrou no Disco de Bolso com Águas de março, e João Bosco (em parceria com Aldir Blanc) com Agnus sei. O compacto teve relativo sucesso, mas não chamou muita atenção para Águas de março, que seria considerada, 38 anos mais tarde, como a música brasileira do século. Tom, que não toca nesta faixa, canta Águas de março, meio sem graça. O cartunista Jaguar, então diretor de O Pasquim, me contou outro dia (anos atrás) o desastre desta gravação. Antes de irem para o estúdio, eles tomavam uns chopinhos quando, súbito, um pivô de um dente da frente de Tom Jobim, caiu no fundo da tulipa. Tom começou a falar sibilando, e se negou a gravar daquele jeito. Já era tarde da noite, Jaguar conhecia um dentista na Zona Norte carioca e foi lá com o compositor (não era Guinga, que é dentista e mora na Tijuca). O cara colocou um novo pivô, e Águas de março foi gravada. Porém, só seria devidamente reconhecida a partir da irretocável gravação de Tom e Elis, em 1974.

Por fim, mas não menos importante, a era do rock and roll, poderia ter sido iniciada em 1953, e não em 1955, quando Bill Haley and his Comets estourram nas paradas mundiais com (We're gonna) rock around the clock. Em 1953, os compositores Max Freedman e Jimmi De Knight compuseram a canção especialmente para os Saddlemen, nome da banda de Haley na época. Porém um cara chamado Dave Miller da Holliday Records, pela qual gravavam os Saddlemen, não gostava de Jimmy Deknight (cujo sobrenome verdadeiros era Myers), e proibiu o grupo de gravá-la. No ano seguinte, Bill Haley e seus Cometas foram contratado pela Decca. O primeiro 78rpm do grupo, lançado pelo novo selo, em 1954, foi Thirteen women and one man in town e (We're gonna around) the clock, no lado B. Parecia que o cara da Holliday Records estava com razão, porque Rock around the clock não aconteceu. Pelo menos até o ano seguinte, 1955, quando entrou na trilha de Blackboard jungle (aqui, Semente da violência). É a música que abre o filme, estrelado por Glenn Ford. Virou sucesso mundial de dia pra noite. A própria Rock around the clock passaria de tema, a um filme, com Bill Haley e os Cometas, em 1956.



Comente esta matéria

COMENTÁRIOS

Leia aqui os comentários dos internautas


ANTERIORES

- Astrud Weinert, estrela por acaso
- Esnobadores de estrelas
- Ruim, ser ou não ser?
- Crítico do JC lança livro sobre o frevo
- Para encerrar o papo sobre a fuleiragem music

Voltar ao topo Aumentar Diminuir Imprimir Enviar por e-mail Comentar
 
 
COLUNA
Da Paraíba para a alta-costura

   
 

 
Copyright © 1997-2008, JC OnLine - Recife - PE - Brasil.
Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site para fins comerciais. Criação e desenvolvimento: JC OnLine.