Dia desses, tive o prazer de conversar com o cearense "Maguím" - escrito assim mesmo, como se fala na terra de Fagner. No meio do surfe, este é o nome de Zé Rubem, dono de uma marca que cresce diariamente, chamada de Greenish. Foi massa conhecer a figura. Sabe aquele cara gente boa? Fala mansa, simples e, mais que tudo - como diria o conterrâneo Marcelo Cartaxo, da Mentor -, com água salgada nas veias. Nordestinamente salgada, diga-se. No geral, a conversa me deixou feliz. Digo já o motivo.
Antes, embolando o meio-de-campo, utilizando o futebol como exemplo, Pernambuco, e por que não falar Nordeste, esteve na mira da mídia brasileira, por causa da confusão envolvendo a Polícia Militar e jogadores do Botafogo, em jogo nos Aflitos, há pouco mais de um mês. A partir dali, criou-se de fato um clima de guerra. Aqui, teóricos da existência de um complô Sudeste contra a nossa região "confirmaram" a perseguição. Os de fora, por sua vez, entre um ato hostil e outro - à época, visitei muitos fóruns sulistas -, acharam um exagero as medidas tomadas pela PM no trato com os cariocas. Para os sulistas, ficou claro que todo mundo com o nosso sotaque cantado, tinha em mãos armas para serem usadas a qualquer momento contra os "estrangeiros".
Para falar a verdade, não creio em preconceito. Sou nordestino, com orgulho, conheço um monte de gente de fora e desconheço atos do tipo. No máximo, a galera de cidades maiores e do eixo Sul/Sudeste nos trata como suburbanos, nada mais que isso. Mais ou menos como acontece quando um recifense chega de nariz empinado, por exemplo, para passar fim de semana numa cidade do interior. Nada mais.
No esporte dos reis indonésios levamos desvantagem, economicamente falando, em relação aos mais abastados lá de baixo. Isso é fato. E aí volto a falar sobre a conversa que tive com Maguím. Escutei-o afirmar que a Greenish tem por objetivo injetar grana por aqui mesmo. Sabe qual é? Campeonatos no Nordeste - a marca já patrocinou, este ano, alguns eventos regionais -, surfistas locais e o povo daqui são os alvos. Isso é arretado.
Tem hora que temos de marcar território. Não é essa coisa Nordeste x Sudeste. Esqueça. A intenção é tentar rumar por um caminho já trilhado por cariocas, paulistas, gaúchos, catarinenses. Somos referências no surfe. Os melhores do Brasil estão por aqui. Nas disputas por seleção, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte detonam. São respeitados. Pernambuco se recupera dos efeitos dos ataques dos tubarões, mas está evoluindo. É notório. Halley e Alan estão aí para comprovar.
Na listagem do Supersuf, os nordestinos são maioria. "Sabe, Marcelo, o que quero é devolver para o Nordeste tudo que o surfe me deu", decretou Maguím, com sua calma inconfundível. É isso aí. Com mais investimento, podemos sonhar em ter a infra de São Paulo ou Rio de Janeiro. O que não podemos é exarcebar esse complexo de coitadinhos. Temos mais é de ressaltar nossos feitos. Levar na gréia aquela história de que o Nordeste não tem onda, que nossos atletas são merrequeiros... devolver as gozações, na paz, claro. Somos competitivos, somos radicais e temos uma linha de fazer inveja. Só temos de acreditar nisso.
No site de Ader Oliveira, o SurfBahia, li num fórum uma coisa e, confesso, fiquei orgulhoso. Um garoto sulista deixou uma mensagem naquela de tirar onda com a galera baiana, que vez por outra é brindada com altas ondulações (swell). Baiano é massa porque se valoriza. O surfista local tocou o "forasteiro" desrespeitoso para correr. Chateado, só podia, o soteropolitano argumentou que lá dava onda - e a galera dava conta de verdade - e que os nordestinos vão chegar longe. Foi por aí. Disse tudo e, de quebra, fez uma premonição. Eu também creio nisso.
MÚSICA
Tive a oportunidade de escutar o som do cd de Teco Padaratz, o El Nino, na última sexta-feira. Ele me causou boa impressão. Som tranqüilão para curtir depois de um dia de surfe, com a galera. As letras falam do mar, do esporte... Tem coisa melhor? As melodias dão um toque leve aos versos. Coloquei o fone por curiosidade, que nem crítico de música sou. Foi justamente o nosso especialista no JC, Marcos Toledo, quem me mostrou. Ele gostou. Eu, idem.
LEMBRANÇAS
A coluna não saía, visto que tive três semanas daquelas - com feriado no meio e tudo - e eu e Wlad Paulino, do JC On Line, que é quem recebe os meus textos, começamos a lembrar das coisas do surfe do passado. Uma delas, acho, nem existe mais. Quando mais novos, costumávamos recortar revistas de surfe e fazer adesivos com papel contact. Ele colocava nos goleiros do time de botão. Eu, certa vez, coloquei as minhas gravuras numa prancha de isopor. Como não imaginei, na primeira ida à praia, o mar de Boa Viagem levou tudinho. A saída foi pintar as marcas. Deu mais certo.
ALMA E SURFE
Na semana passada, rolou um evento muito legal em São Paulo. O Alma Surfe é assim: tudo do esporte é reunido num lugar legal e as pessoas vão visitar exposições, assistir a shows e tudo mais que envolver o surfe. Vale a pena até trazer para o Recife, precisamente, cidade de grandes eventos e oportunidades. Quem se habilita?