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Toques digitais

Esnobadores de estrelas
Publicado em 27.06.2008, às 12h47

JOSÉ TELES é crítico musical do Jornal do Commercio

Tava lendo aqui no monitor do micro, uma notinha sobre Boy George, saída no The Guardian. Boy George? Quem? Aquele cantor inglês, minha senhora. Um que era ver uma moça, até vestido usava, e fez o maior sucesso nos idos da década de 80 com uma gravação chamada Karma Chameleon. Por causa de um rolo na justiça inglesa, vetaram esta semana a entrada de Boy George nos Estados Unidos, onde ele faria uma turnê com 30 shows. Fiquei matutando cá comigo será que hoje em dia Boy George conseguiria fazer mais do que cinco shows no Brasil? Ou será que, na realidade, o universo pop não é tão volátil assim? Talvez seja, e só no Brasil! Na primeira vinda de Paul McCartney à Pindorama, ele conseguiu lotar o Maracanã.

Na segunda cantou prumas 50 mil pessoas. Voltando a Boy George, aí pelo começo dos anos 90, a Raio Lazer anunciou uma apresentação de Boy George no Recife, parece que no Geraldão. Fiz uma matéria de capa do Caderno C com o cara, que não deu as caras por aqui. Talvez porque poucos fãs dariam suas caras no show. E olhe que ele tava com um sucesso mais ou menos fresquinho, uma versão reggae de Everything I own, hit do Bread em 1972. Lembro que quando sabiam da vinda de Boy George o pessoal comentava: "O Recife é assim, só vem porque tá em fim de carreira".

Dias atrás, li, também no The Guardian, uma matéria altamente elogiosa sobre Jimmy Cliff, uma lenda do reggae em todo canto, menos no Brasil. No Recife, então! A primeira vez que ele tocou aqui, com Gilberto Gil, em 1980, o Geraldão não deu pra quem quis. Na segunda vez que pintou na Veneza Sul-Americana, Jimmy Cliff foi inventar de caminhar no calçadão da Avenida Boa Viagem. Pra quê?! Os que caminhavam em sentido contrário, passavam pelo regueiro jamaicano e um dizia pro outro: "Olha não, que o negão tá a fim de aparecer". A mesma coisa com Manu Chao. Antes de ele vir fazer um show na Praça do Arsenal, todo mundo tinha que ter, ou pelo menos conhecer, o CD Clandestino. Depois que o sujeito fez show no Recife, e virou arroz de festa em Olinda, só faltou neguinho passar a mão no traseiro dele, e dizer, Manu, chau!

Uns quatro anos atrás, Ron Wood, o guitarrista dos Rolling Stones, veio conhecer Porto de Galinhas (ou Maracaípe, não lembro mais), e inventou de comemorar o aniversário do filho (ou da filha), com a família em um restaurante em Boa Viagem. Ele lá na mesa, com a patroa, o filho e a filha. Uma banda tocava no restaurante, lotado. Alguém pediu pra Ron Wood dar uma canja. Ele não tava a fim. Vi neguinho comentando: "Pô, bróda, este baixinho só quer ser as pregas!" Sorte de Ron Wood não passar mais dias por aqui, acabava ele sendo ignorado, até se baixasse na rua da Moeda, que esnobar é com a gente mesmo. Contam que quando Jean Paul Sartre teve no Recife com a dona Encrenca dele, Simone, foi assim. No início todo mundo fazia a maior festa com o casal. Depois de alguns dias, tava o pessoal entornando uma braminha da antarctica no Savoy e de repente alguém na mesa alertava: "Michou o papo! Vê quem vem ali: o zarolho e a mocréia dele!". Quer dizer, não diziam mocréia, que é um termo mais recente, talvez usassem "canhão". Os exemplos são muitos, e não é só em Pernambuco não. Citei casos locais, mas a coisa é nacional.

Mick Jagger, colega de banda de Ron Wood, de férias, no Rio, (não recordo se em 1967, ou 1969), foi com sua então patroa, Marianne Faithfull jantar no Antonio's, em Ipanema. Era a segunda vez que ele vinha ao Brasil, portanto niguém deu a mínima pro casal. Não deram nem quando Mick Jagger, depois da ceia, sacou do bolso, e acendeu, um cigarrão da erva maldita. isto me faz lembrar, aquela historinha, talvez apócrifa, do sujeito que tava com uma moça num barzinho luxuoso de São Paulo. Súbito, a moça esbugalhou os olhos, e exclamou: "Roberto Carlos!" O rapaz virou-se e viu Roberto Carlos sentado numa mesa, num cantinho discreto, entornando um uisquinho. "É, Roberto, vez por outra ele baixa neste boteco". A moça era fanzona do cantor, tinha que falar com ele. Antes precisava retocar a maquiagem. Quando a viu entrar no toalete, o rapaz, rapidamente, foi à mesa de Roberto Carlos: "Roberto, me desculpa te chatear, mas você podia me fazer um favor? Tô tentando ganhar aquela menina, e tá a maior dificuldade. Ela é fanzona tua. Se tu for na minha mesa, e falar comigo como se me conhecesse, a gata endoida por mim". Pra se livrar do mala Roberto Carlos concordou.

A moça voltou nervosa, cadê coragem pra ir falar com o ídolo? Quando dá fé é ele quem tá vindo na direção da sua mesa. Roberto se aproxima, toca no ombro do rapaz: "E aí, tudo bem, bicho?" O rapaz volta-se pro cantor, faz o maior ar de chateado, e diz: "Pô, Roberto, atrapalhando a conversa? Dá um tempo, cara, depois te ligo!"



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