Costuma-se dizer que, ao morrer, todos viram bons, pelo menos no curto prazo. Porém se alguém se foi há 20 anos e ainda é lembrado com carinho, reconhecimento e saudade, é porque de fato fez muito bem em vida. É o caso do professor Vasconcelos Sobrinho (como o chamávamos). Neste um século, desde o seu nascimento, muita coisa mudou, mas as questões com as quais trabalhou continuam válidas e atuais. São indicadores da aguda visão deste homem, pensador e formulador.
Mas Vasconcelos Sobrinho não apenas formulou cenários e propostas, também foi realizador. Quando se fala em seu nome, é freqüente a associação com o Jardim Zoobotânico de Dois Irmãos, a Estação Ecológica do Tapacurá e com estudos sobre desertificação no Nordeste.
Sua visão de mundo e da responsabilidade socioambiental diante dele vem de pelo menos 1949, quando publicou o livro As Regiões Naturais de Pernambuco, o Meio e a Civilização. Mais tarde, escreveu outro, expandido, focando todo o Nordeste, que editou com a colaboração de vários cientistas. Outros livros de sua autoria também se reportam a essa visão pessoal de mundo que, por vezes, transcendia ao seu tempo, como Ciência Religião sem Dogmas e A Arte de Morrer.
As minhas experiências com Vasconcelos Sobrinho, já no fim da sua vida, foram sempre encantadoras. Uma delas foi quando me "intimou" a voltar do mestrado sem mesmo ter defendido a dissertação para lhe ajudar a estruturar o primeiro curso de especialização em ecologia de Pernambuco, na UFRPE. Outra se deu quando fui seu assistente em viagens pelo Sertão, para identificar o que ele já chamava de núcleos de desertificação, tendo como companhia a arquiteta Liana Mesquita, sua amiga de fé e de prática.
Numa dessas viagens, subi um morro alto tentando seguir os seus passos rápidos, apesar dos mais de 70 anos de idade. Lá em cima, parou, sem fôlego e pálido, parecendo sentir tontura. Não teve dúvida, deitou-se no solo pedregoso e ali permaneceu por minutos, sem querer ajuda. Depois levantou as pernas na vertical, apoiando a cintura com as mãos, induzindo o sangue a descer por gravidade para o cérebro. Pouco mais, não se falava mais nisso, já pulando cerca que o bode não atravessa e desviando de gravetos espinhosos de uma caatinga sem folhas, na estiagem. Lembro-me que, desta viagem, eu trouxe uma cabrinha no colo, dentro da caminhonete da Sudene, a qual dei o nome de Serra Branca, município da Paraíba de onde ela veio para Recife.
José Rafael de Menezes, que escreveu sobre ele, chamou-o de ecologista místico. De fato, o seu livro Catecismo da Ecologia trata de fé, enumera mandamentos da ecologia e chama os animais de irmãos. Mais: quem conviveu com Vasconcelos Sobrinho e não o ouviu falar sobre o curupira, aquele que protege os animais nativos dos caçadores, por iludi-los com suas pegadas de pés invertidos? O próprio professor me contou um dia que escreveu os Dez Ensinamentos do Padre Cícero e difundiu em calendário pelo povo da Caatinga. "Em mim podem não crer, mas em Padre Cícero eles acreditam".
Outro viés diferenciador para o seu tempo era a disponibilidade em tratar com a imprensa, o que levou alguns acadêmicos a discordar da sua fala aberta e, às vezes, pouco "científica". Para responder tinha um forte argumento: "Prefiro errar algumas vezes ou ser mal entendido do que me omitir de contribuir para a ampliação da consciência ambiental". Neste momento, ele estava gerando as primeiras discussões locais sobre o papel do cientista diante da sociedade.
Foi com esse ímpeto que nos ajudou a criar a Associação Pernambucana de Defesa da Natureza (Aspan), uma das primeiras do Brasil, da qual tenho a satisfação de ter sido um dos fundadores e primeiro presidente. Foi com esse ímpeto que denunciou o desmatamento da Mata do Engenho Uchoa e da Mata de Caetés, sendo as duas depois transformadas em Unidade de Conservação.
Fui testemunha de sua pressa e ansiedade no final da vida, vendo que tinha Mal de Parkinson e que iria parar. Parou, mas nós continuamos.
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