Navegue por aqui »
Max: 29º Min:23º
Recife - 08.09.2008
 
   
10 anos
 Celebridades
 Cinema
 Colunas
 Espaços culturais
 Exposições
 Galerias
 Gastronomia
 Linkteratura
 Museus
 Shows e festas
 Teatro | Dança
 Notícias
PARCEIROS
 Achei Cifras
 Bem Temperado
 Bumba na Suíça
 Café Colombo
 Cinemascopio
 Cyberartes
 Paralamas Big Bang
 Praia Certa
 Quinteto Violado
 Raízes da Tradição
 Tu visse?
 Virtuosi





 

 

 

 
  
 .Cultura
.Home / Cultura
Aumentar Diminuir Imprimir Enviar por E-mail Comentar


Toques digitais

A culpa é da axé!
Publicado em 22.04.2008, às 14h09

JOSÉ TELES é crítico musical do Jornal do Commercio

A culpa por esta musiquinha de péssimo gosto que grassa o rádio e o show business brasileiro, muito mais o nordestino, é da axé music. Não a axé em si, mas o si da axé, porque se a gente for prestar atenção na axé, ela é apenas uma música de Carnaval. Inclusive uma música original, misto de levadas caribenhas com o frevo, isto no início, claro. Mas as letras são feitas por e para débeis mentais, argumenta, e interrompe-me a senhora. Como disse antes, axé é música de carnaval, e música de carnaval não precisa de letras maravilhosas, carece apenas que as letras tenham funcionalidade. Sejam fáceis de ser cantadas pela turba. Marchinhas e frevos-canção eventualmente tinham grandes letras, mas em sua maioria eram deliciosas bobagens feitas pros três dias de folia (modo de dizer, que carnaval é um mês inteiro há muitos anos). Se pegassem, como muitas pegaram, continuariam a ser cantadas, mas apenas no Carnaval.

A axé. No entanto, conseguiu o que o frevo persegue até hoje, qual seja, virou música de ano todo, não se restringindo ao tríduo momesco (com perdão do clichê ). Mais do que isto, foi parar nas grandes gravadoras, numa época em que uma geração nascida durante a ditadura e crescida com ela, encontrava-se totalmente despolitizada e pronta para o consumo. O que este pessoal queria era divertimento, usar roupa e tênis de grife, iguaizinhos aos dos colegas. Um rebanho dócil. Esta geração (com as exceções de praxe) e a axé foram feitos uma para a outra. Vale lembrar que implicitamente aí também havia um conflito de gerações. Já que as velhas musiquinhas de carnaval não diziam mais nada a um cara (ou uma cara) que não era nem sonho erótico quando elas foram lançadas. As gravadoras, pois, vieram com gosto de gás em cima deste segmento. E tome axé!

A trilha sonora de carnaval de rebanho, com cercado e tudo. Tocada incessantemente no rádio e TV a axé conquistou corações e mentes (detesto esta tradução grosseira de hearts and minds, mas não encontro outra melhor no momento). Pior virou uma indústria extra-musical. Os empresários souberam, sabiamente, vender as bandas Brasil afora, criando carnavais em cidades onde não existia a folia. A axé espalhou-se pelo país nos Carnatal, Fortal, Garanheta, etc, etc, etc. Uma coisa de uma força comercial tão grande, e tão bem-estruturada que tornou eternas estrelas do gênero artistas que fizeram sucesso no começo da década passada, como Daniela Mercury; só emplacaram um único sucesso, Ricardo Chaves; ou que nunca tiveram um sucesso nacional, Margareth Menezes. Estes e outros astros da axé vivem de agendas cheias, com os carnavais fora-de-época, e bombam no carnaval de Salvador.

Até aqui estou sendo mais ou menos óbvio. Pois bem, prezadíssimos não sei quantos leitores virtuais, tava o que vos tecla gastando um tempo num bar aqui perto de onde moro. Não minha senhora, eu não vivo em bares não. Eu durmo em casa. Mas como dizia, antes de ser tão rudemente interrompido, tava no bar, e neste bar, com aparelhos de TV por todos os lados, passava um DVD de um grupo de pagode (não lembro qual). A musica era aquela pobreza franciscana: harmônica, vocal, de letras, mas o que me chamou atenção foi o fato do cantor agitar a galera (este pessoal não tem platéia, nem público: tem galera), usando os mesmíssimos artifícios do pessoal da axé: "É na palma da mão", "Tira o pé do chão", "Oi, oi, oi, oi", "Quero ver todo mundo mexendo" etc, etc, etc.

Estes maneirismos, ou cacoetes, como queiram, estão também nas bandas que infestam o Nordeste inteiro. Aliás, explicitamente, tanto que elas já entraram nos carnavais fora-de-época acrescentando um "Elétrica" ao nome. Assim Saia Rodada vira Saia Elétrica, Calcinha Preta, vira Calcinha Elétrica. Desta forma as bandas foram admitidas no clube da axé, tocam até em Salvador no carnaval e no festival de verão. Os baianos podem ter fama de preguiçosos, mas não são burros. Sacaram que tavam perdendo terreno para as bandas, como perderam os sertanejos, que foram, quase todos, varridos do Nordeste, e puseram em prática a máxima: "se você não pode com o inimigo, una-se a ele". Uniram-se, e só o Senhor do Bonfim sabe o que vem pela frente.

O que aproxima a música das bandas do turbofolk, um subgênero musical surgido na antiga Iugoslávia? Leiam na próxima e emocionante crônica deste Toques Digitais.


Comente esta matéria

COMENTÁRIOS

Leia aqui os comentários dos internautas


ANTERIORES

- 100 melhores sem Gonzagão?
- Ela foi da pá virada até virar a virgem da América
- John Lennon teria adorado a Better Beatles
- Quando o distinto público não entende o que se passa
- Historinhas de rolos no palco

Voltar ao topo Aumentar Diminuir Imprimir Enviar por e-mail Comentar
 
 
COLUNA
Cromado na moda

   
 

 
Copyright © 1997-2008, JC OnLine - Recife - PE - Brasil.
Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste site para fins comerciais. Criação e desenvolvimento: JC OnLine.