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Toques digitais

Ela foi da pá virada até virar a virgem da América
Publicado em 25.03.2008, às 15h18

JOSÉ TELES é crítico musical do Jornal do Commercio


Áudio
» Dream - A little dream of me

Houve tempos em que se admirava cantoras pela voz, repertório. No Brasil, imbatível foi Elizeth Cardoso. Já numa época mais recente, a da MPB, Bethânia, Gal e Elis formaram a trinca preferida. Lá fora, Ella Fitzgerald, Nina Simone, Billie Holiday, naturalmente, Sarah Vaughan. Para citar umas poucas. Raramente, ouço alguém citar duas das minhas cantoras favoritas como as de sua preferência. Ambas Doris Monteiro e Day. Há uma tendência a valorizar cantoras negras, ou que façam algo mais do que simplesmente cantar bem Melhor ainda se o trágico as persegue. Assim como acontece também com os cantores. Apesar de não raro resvalar para uma sacarina braba, Pat Boone cantava, ou canta, muito bem. E o melhor de todos foi Frank Sinatra, praticamente uma unanimidade. Mas ai tergiverso.

Os "mudernos", por exemplo, quando descobriram um negócio que no final dos anos 60 se chamava sambalanço, e nos anos 90 passou a ser denominado sambarock, ignoraram solenemente Doris Monteiro, talvez a melhor intérprete de sambalanço, no qual os mestres eram Orlan Divo e o pai da matéria, Jorge Ben (quando não usava o feioso Jor). Doris, a Monteiro, tem quatro discões com Miltinho, todos com o título de Doris, Miltinho e charme, mas grandes são seus álbuns individuais. Mas quero me estender mais sobre a outra Doris, a Day, que muita gente desdenha porque só a conheceu depois de ela virar virgem.

Principalmente por causa das comédias assépticas, de cenários rosados, nos quais fazia o casal perfeito com Rock Hudson, nos primeiros anos da década de 60. Bom mas se ela perpretava tal tipo de coisa, queriam que fosse adorada? Claro que não. Não foi à toa que Doris Day recebeu apelidos como Miss Chastity Belt (Miss Cinco de Castidade), ou America's la-di-da happy virgin (grosso modo, A saltitante e feliz virgem da América). Doris Day fez 39 filmes, o último deles em 1968, alguns muito bons.

Mas a vida de Doris Day não foi tão rosada quanto leva a crer grande parte do seu cinema (lembrando que ela é boa atriz e fez alguns troços admiráveis, entre estes O homem que sabia demais, de Hitchcock). Doris Kappelhoff só se tornou virgem oficial de Holywood no final dos anos 50. Nascida em 1924, desde os 16 anos que ela foi da pá virada.

Com esta idade já cantava em barzinhos em Cincinatti. Les Brown a descobriu com 17 anos, e deu-lhe de imediato um contrato. Meninas novinhas assim, mesmo fazendo sucesso, ou por isto mesmo, costumam juntar-se a canalhas. Ela teve vários na vida, o último foi o marido, também seu empresário, Marty Melcher. Quando o sacripanta bateu os sapatos de cromão alemão, descobriu-se que tinha levado com ele a grana da moça, e ainda deixado a coitada afundada em dívidas.

Em 1969, Doris Day ainda passou por uma atribulação, embora de raspão. Os hippie malucos que seguiam o doido do Charles Manson, assassinaram Sharon Tate e seus convidados na mansão de Terry, filho único da cantora. Terry, no entanto, estava viajando, e havia alugado a casa A Roman Polansky. A família Manson na verdade queria pegar um dos Beach Boys, que também vivera na cãs (Terry trabalhou com o grupo). Pois bem, Doris Day descobriu-se falida, e ainda popularíssima. Foi salva financeiramente por um programa de TV, de grande audiência, que lhe segurou a onda durante dez anos. Aos 84 anos, está aposentada (a outra Doris, a Monteiro, tem dez anos a menos do que xará norte-americana, e quase não se fala mais dela). Mas e a música?

Doris Day, descendente de alemães, tem voz branquíssima, sua música é branquíssima, mais wasp impossível. O que não a impediu de ser a cantora pop perfeita. Loura, linda, afinadíssima, e com um repertório à altura (com as exceções de praxe). Lembrava dela cantando What will be will be (que sera sera ), na trilha de O homem que sabia demais. Só descobri a música da branquela num LP comprado nos anos 70, com aquela interpretação impecável de Sentimental journey. Entrou pra minha lista de prediletas. Para não alongar estas mal tecladas digitais, indico pra começar um Greatest hits, como entrada. Depois os álbuns Hooray for Hollywood, Young man with a horn, com a orquestra de Harry James, Young at heart, Doris com Frank Sinatra. Ela lançou uns 30 discos, acrescente-se a isto algumas caixas retrospectivas. Este material só tem uma contra-indicação, a grande maioria é importada e custa os olhos da cara e mais alguma coisa, portanto...

Contato:
teles@jc.com.br


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