Kleber Mendonça Filho
Enviado especial
BERLIM – Uma das coisas mais difíceis em cobertura de festival é tentar medir e comunicar a recepção de um filme. Ainda mais difícil quando trata-se de um filme nacional numa competição internacional. Nesta segunda-feira pela manhã, ao final da sessão de imprensa de Tropa de Elite, filme de José Padilha que está na competição do Festival de Berlim, não houve aplauso, ou houve um silêncio. Uma das duas versões abre espaço para interpretações diferentes. Colegas alemães consideram a ausência de aplauso ruim. Outros acham que o final do filme é chocante, o que geraria silêncio. O filme não foi vaiado. Na sessão oficial, à tarde, o filme foi muito bem recebido pelo público. Harvey Weinstein, produtor americano, chegou ao final da sessão para sentir a recepção.
A sessão de imprensa do Tropa de Elite, na verdade, foi complicada, uma vez que a organização avisou ao microfone que haveria um atraso pelo fato de a cópia legendada em inglês não poder ser exibida. Em Berlim, sessões de imprensa de filmes não falados em inglês são projetadas com legendas em inglês. Filmes anglofônicos passam legendados em alemão. Com Tropa de Elite exibido com legendas em alemão, a grande maioria dos críticos estrangeiros teve que ouvir a tradução simultânea com uma voz feminina via headphones.
Difícil avaliar se isso prejudicou o filme, de diálogos rápidos e gritados. Um número não significativo de espectadores deixou a sessão, algo normal em qualquer festival grande. O júri em peso estava lá, incluindo o presidente Costa-Gavras. A versão exibida é a mesma lançada no Brasil em outubro, exceto pela vinheta da Weinstein Company, substituindo a da Universal, vista na cópia brasileira.
De qualquer forma, nossa sensação é a de que o estilo do filme pareceu deslocado num festival de grande porte onde há claro interesse por um cinema de levadas diferentes. Parecia mais um filme hollywoodiano, da qualidade dos tiros ao uso de música e ritmo rápido. Conversando informalmente com colegas, um suíço e outro russo, separadamente, destacaram de maneira negativa o aspecto de “filme de guerra” nas cenas de treinamento de policiais lembrando muitos outros filmes. Concordam que o filme é bem feito.
Finda a sessão, os atores Wagner Moura, Fernanda de Freitas, o fotógrafo Lula Carvalho, o produtor Marcos Prado e o diretor José Padilha compareceram à entrevista coletiva, que teve lotação média. Padilha, com inglês fluente, trabalhou no microfone, claramente sem o timing de coletivas em festivais internacionais onde respostas são sucintas e perguntas numerosas. Na coletiva de Tropa de Elite em Berlim, as respostas do cineasta foram longas, não dando espaço para as perguntas que ainda poderiam ter sido feitas.
Padilha variou entre articulado e prolixo. Claramente, tinha uma lista de pontos importantes para ele e para o filme que precisava transmitir. Trouxe uma série de defesas para ataques de, de fato, não ocorreram, mas que certamente ocorreram no Brasil, ao longo dos últimos seis meses. Apresentou a estatística de que “nos EUA, num ano inteiro, há 200 mortes de civis pela polícia, enquanto no Rio de Janeiro são 1.200”.
Duas perguntas mostraram-se curiosas sobre a questão da pirataria, e a informação gerada pelo Ibope de que 11 milhões de espectadores teriam visto o filme longe dos cinemas impressionou muita gente (dois milhões e meio viram Tropa de Elite nos salas). Padilha usou o exemplo do muro de Berlim para falar sobre sociedade dividida e disse não suportar mais os “ismos do mundo, pois o que importa é o que está acontecendo”, uma referência ao aspecto “direto” do filme em relação à brutalidade filmada.
Uma jornalista alemã perguntou sobre o retrato do filme para com as ONGs, “pois não são todos que são envolvidos com o tráfico”. Padilha argumentou que as favelas são, das duas uma, controladas pelo tráfico ou pela polícia. E para ele, estar na favela, como ONG ou fazendo cinema, tem que negociar e fazer doação com um dos lados, “e não sou só eu, Fernando Meirelles (de Cidade de Deus), Walter Salles também sabem que pra filmar em favela tem que pagar”.
A partir desta terça-feira começam a sair as criticas da imprensa internacional para Tropa de Elite, e só assim teremos uma idéia mais nítida de como esse filme com tema tão especificamente brasileiro, mas com a linguagem moderna de cinema comercial grande, chegará ao mundo.
FAVELA - Sobre essa questão da imagem brasileira, vale fazer uma observação sobre três filmes em destaque em três mostras importantes de Berlim. Tropa de Elite, na competição oficial, nos mostra incursões da polícia contra o tráfico nos becos de favelas cariocas. O ainda inédito no Brasil Maré – Nossa história de amor, de Lúcia Murat, que faz parte da seleção Panorama, é uma releitura de Romeu e Julieta na favela da Maré, no Rio. Cidade dos homens, de Paulo Morelli, já lançado nos cinemas brasileiros, exibido na mostra Generation, também nos leva à favela, cenário de amadurecimento de dois amigos. Resumindo, palavra chave: favela.