No mês de outubro, a revista Época Negócios estampou na capa o tema: “Porque somos tão pouco inovadores”. Há algum tempo, eu tenho tido vontade de escrever sobre o assunto do ponto de vista de um economista que tem buscado se especializar em inovação. Assim, tentarei ir mais a fundo no cerne da questão em dois ou mais textos curtos.
As causas para um país ser ruim de inovação podem ser várias, dada à complexidade do tema. Não há uma resposta única e, sim, um conjunto de fatores que determinam a capacidade de gerar valor econômico. Como exemplo dessa complexidade, vou citar o futebol. Hã?! Isso mesmo, a nossa paixão nacional.
Um dos fatores que podem atrapalhar a inovação brasileira pode ser a paixão por esse esporte que impede as pessoas de estarem utilizando seu tempo livre para pensar, estudar, pesquisar e debater assunto que gerem resultados econômicos para, ao invés, estar discutindo quem será o campeão nacional ou quem será rebaixado para a segunda divisão. Por outro lado, esse mesmo esporte, como qualquer outro, tem um papel fundamental na cidadania de vários jovens que, se não estivessem jogando bola, estariam nas ruas sabe-se lá fazendo o quê.
Somos tão bons no futebol e gastamos tanto tempo nisso que somos os melhores do mundo. Utilizamos tão bem o nosso tempo livre com esse esporte que criamos o chamado “futebol arte”, e o que é a arte senão um processo criativo de inovação? Ou seja, somos inovadores em futebol e somos fracos em inovações que geram valor econômico para a maioria das pessoas.
Essa analogia também serve, por exemplo, para o carnaval. Somos ótimos de festa, churrasco, cerveja, sexo e outras coisas que não geraram valor econômico para a sociedade como um todo. Não que o esporte, o carnaval, as bebidas ou o sexo não gerem valor, mas o impacto econômico destes é menor que, por exemplo, aqueles relacionados às tecnologias da informação, da biotecnologia e das diversas engenharias que demandam grande esforço de tempo e dedicação.
Por outro lado, isso mostra o quanto somos um povo feliz, e o quanto somos criativos! Afinal, não há nada mais emocionante do que ver o time do nosso coração ganhar, mais agradável do que a cervejinha e a azaração na praia de Boa Viagem em frente ao Acaiaca ou em Porto de Galinhas. Falando sério. É muito bom mesmo e temos que nos orgulhar disso! Não é todo mundo que tem um paraíso como o Brasil para viver. De fato, se levarmos em consideração as artes, a música, os esportes e tantas outras modalidades do chamado “pilar da emancipação de uma sociedade moderna” (Boaventura dos Santos, Crítica da Razão Indolente. Cortez Editores, 2000), somos um povo altamente inovador.
Espero que vocês estejam começando a entender melhor a gigantesca complexidade da inovação que pode se caracterizar pela arte ou pelo avanço tecnológico. No entanto, se estamos falando de inovações que geram valor econômico, precisamos focar nos conceitos e nos fatores que geram estas inovações.
Primeiro, temos que esclarecer duas coisas que a maiorias dos autores se confunde quando o assunto é inovação. Ao lerem esses autores, tenham cuidado com os termos impróprios para explicar como as inovações são formadas, tais como: hardware, software, sistema operacional, tecnologia físicas, tecnologias sociais e tantos outros termos que só fazem confundir mais a cabeça das pessoas. Assim, tenham em mente apenas dois temas importantes: os processos e os valores humanos.
Em qualquer organização (empresa, Estado etc.), existem estes dois temas que são paralelos e integrados, mas, ao mesmo tempo, distintos. Os processos são aqueles que dizem respeito a como as atividades geradoras das inovações são desenvolvidas e os valores humanos são as atitudes que motivam ou desmotivam estas atividades. Entendeu a diferença? Espero que sim, porque isso é fundamental para entendermos o porquê de o Brasil ser um país pouco inovador do ponto de vista econômico.
Em um país, o primeiro processo importante para a geração de inovações é como a sociedade gera e detém conhecimento. Em uma recente entrevista que tive a oportunidade de assistir por vídeo conferência, Alan Greenspam, ex-presidente do “Banco Central” americano, disse que a única forma de o Brasil superar a distância entre os ricos e pobres é através da educação. Este é uma resposta absolutamente precisa. Parece óbvio, não é? Mas isso não é o que tem acontecido no País pelos diversos motivos que todos nós já estamos cansados de saber. O ponto aqui é entender que talvez esta seja uma das principais causas do Brasil não ser inovador.
Então, a solução está em criarmos mais universidades? Não é tão simples. Conheço vários exemplos de pesquisas fantásticas desenvolvidas nas universidades brasileiras que não chegam ao mercado. Por que será? Vamos chegar lá, estamos apenas começando nessa viagem maravilhosa pelo mundo da inovação nas sociedades criativas.
Muito bem, então, basta dar mais educação como faz a Argentina. Também não; existem muitos outros fatores como, por exemplo, a conectividade. De que adianta ter conhecimento sem ter facilidade de se comunicar com o mundo e com os mercados ou vice e versa. Neste processo, a inclusão digital e acesso aos mercados ricos são cruciais. Todos nós sabemos que o conhecimento e o acesso às ferramentas de trabalho da era digital é que impulsionam todo esse processo. Não adianta vir com exemplos esdrúxulos do empreendedor tal que, mesmo sendo analfabeto, conseguiu fazer algo altamente inovador e por muita dedicação superou todos os desafios, pois é claro que é a regra que gera a exceção e não ao contrário. Assim, é necessário disseminar e expandir essas capacidades buscando um altíssimo nível de penetração na população, dando acesso à conectividade a qualquer um nas capitais e no interior.
Certo, certo... Então, vamos dar educação, fazer pesquisas nas universidades e conectar todo mundo à internet, celular etc. É um bom começo, mas ainda estamos muito longe de conseguirmos ser inovadores apenas com esses primeiros processos. Atrelados a estes precisamos, ter atitudes ou valores sociais que consigam capturar o potencial latente em todo este conhecimento. Estes valores podem ser: cultura, ética e moral, espírito da descoberta e da ciência, busca pela integração de disciplinas distintas (interdisciplinaridade), liberdade de expressão, interesse pelo uso do tempo livre para atividades que gerem mais conhecimento (a leitura, por exemplo), empreendedorismo etc.
Mas como é possível ter uma sociedade que consegue ter esses valores se ainda não temos segurança, se não temos equilíbrio financeiro, se não temos saúde de qualidade? Todos esses fatores contribuem para que nós, brasileiros, estejamos sempre preocupados mais com a sobrevivência do que com outras atividades relacionadas ao que nos levaria ao crescimento econômico. Há, mas diria o sábio: a inovação vem da adversidade!
Será que isso é verdade mesmo? É claro que, quando o homem se depara com um problema, ele busca uma solução e geralmente cria inovações para sobreviver. Mas também é verdade que quando estamos em nosso tempo livre e com nossas cabeças sem preocupações conseguimos ser mais criativos para melhorar nossas vidas. Desconheço qualquer pesquisa que mostre qual das duas opções gera mais valor econômico, mas concordo com Domenico de Masi que a segunda seja mais propulsora da economia do que a primeira, tendo em vista que, uma vez satisfeitas as necessidade básicas do homem, ele pode buscar a superação dos seus limites como ser vivo. Ele pode buscar a sua evolução como espécie.
Isto nos leva a outro processo importante na geração de inovações economicamente rentáveis que são os incentivos para o uso da capacidade criativa. O que significa isso? Bem, um grande problema da economia brasileira é a falta de talentos. Opa, espera aí! Talento o Brasil tem de sobra! E onde estão eles? Esse é o problema. Onde estão os milhares, senão os milhões de brasileiros que têm grande talento criativo? Ou estão nas favelas sem uma boa oportunidade de desenvolvê-los ou, por outro lado, se descobriram, tiveram uma oportunidade e estão explorando esses talentos fora do País por causa das melhores condições de vida.
Um exemplo típico disso está em Pernambuco, no próprio Porto Digital. Esta organização social foi criada com a finalidade de reter os talentos que estavam se formando nas universidades do setor de tecnologia da informação e que. após de formados, eram recrutados pelas grandes empresas estrangeiras e acabavam indo embora do Estado e do País. Isso não é diferente com outros setores como química, física, biologia, engenharia e tantos outros no Brasil. Assim, toda a conjuntura econômica geradora da qualidade de vida, da segurança, da saúde, do emprego etc. acaba repercutindo neste processo que é o incentivo aos talentos brasileiros a ficarem no país e produzirem as tão desejadas inovações.
Ligados a este processo, existem os valores que precisam ser desenvolvidos no Brasil. De fato, o problema do jeitinho brasileiro, onde o mais “esperto” é quem se dá bem. O problema da impunidade que privilegia os oportunistas e desestimula os honestos e os de boa intenção. Mais uma vez o pilar da emancipação da sociedade moderna descrito por Boaventura dos Santos no quesito ética e direito é que pesa muito forte sobre o incentivo aos talentos permanecerem no País e produzirem inovações. Você conhece muita gente que morou fora, estudou em boas universidades e voltou para o Brasil? Eu também, mas, se uma pesquisa for feita sobre o assunto, tenho certeza de que a maioria dos gênios está lá fora. E mesmo aqueles que voltam, nem sempre conseguem realizar grandes inovações dada à falta de infra-estrutura, investimento e apoio regulatório para realizar tais feitos.
Mesmo assim, acredito que o Brasil tem grandes potenciais, tais como: a biodiversidade, produzindo medicamentos milagrosos a partir de moléculas naturais; os biocombustíveis; a tecnologia da informação; a nanotecnologia ainda incipiente no País; e todas as inter-relações possíveis entre estas três tecnologias, tais como: genômica, bioinformática, proteômica, bioeletrônica, microfluidos, nanobiotecnologia, biomédica, energia & ambiental, nanoaparelhos, nanosensores, nanoeletrônica, biosensores, biochips etc.
Até o momento, espero que você esteja começando a entender a complexidade do problema e que não será uma simples ação que tornará o Brasil em um país altamente inovador. Obviamente, podemos ter uma grande inovação aqui e ali, mas ainda estamos longe de nos tornarmos o celeiro de inovações que pode transformar este País em uma grande potência econômica mundial baseada na era do conhecimento gerada por uma sociedade criativa.
Assim como em qualquer sistema complexo, faz-se necessário descobrir quais os pontos mais importantes dentro deste sistema e que, se alterado, cria a maior repercussão em todo o processo, gerando uma mudança estrutural tal que o sistema passa a funcionar de uma maneira diferente, talvez não perfeita, mas possivelmente melhor.
Na próxima publicação continuarei este assunto e avançaremos nesse tema.