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Técnica

Cientistas transformam célula humana em célula-tronco
Publicado em 20.11.2007, às 16h17

Cientistas conseguiram dar a células comuns da pele humana os mesmos poderes de transformação das células-tronco embrionárias, um avanço surpreendente que poderá, no futuro, gerar os mesmos benefícios médicos esperados da clonagem de embriões, mas sem o processo polêmico. Equipes de dois continentes informaram o sucesso em dois artigos divulgados hoje nos periódicos Cell e Science. Trata-se de um desfecho concorrido em uma corrida que teve início há cinco meses, quando cientistas anunciaram que a transformação havia sido obtida em células de camundongos.

A técnica da "reprogramação direta" contorna a série de obstáculos éticos, políticos e práticos que surgiram em meio às tentativas de gerar células-tronco embrionárias humanas por meio da clonagem de embriões. Cientistas familiarizados com o novo trabalho dizem que a clonagem continua a ser uma estratégia importante, mas que o novo trabalho é um golpe de mestre. "Este trabalho representa um avanço científico tremendo - o equivalente biológico do primeiro avião", disse o médico Robert Lanza, principal cientista da empresa Advanced Cell Technology, que vem tentando extrair células-tronco de embriões humanos. "É quase como transformar chumbo em ouro", disse Lanza, advertindo, no entanto, que o trabalho ainda está longe de gerar benefícios médicos.

Apesar do sucesso inicial, há um problema: neste momento, a técnica gera o potencial para o desenvolvimento de câncer, o que a torna inaceitável para os usos mais esperados para as células-tronco embrionárias: a criação de tecidos para transplante. O efeito causador de câncer, no entanto, é um subproduto da técnica, e pesquisadores acreditam que poderá ser evitado. O artigo na Cell é de autoria da equipe de Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto, e o da Science, da equipe de Junying Yu, trabalhando no laboratório do pioneiro das células-tronco James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison.

Para o trabalho, os dois cientistas escolheram diferentes tipos de célula como matéria-prima. Yamanaka usou células do rosto de uma mulher de 36 anos. O grupo de Thomson, células do prepúcio de um bebê. Em ambos os casos, as células foram geneticamente reprogramadas para se tornar pluripotentes - capazes de gerar diversos tipos de tecido. A reprogramação foi obtida com o uso de vírus, que implantaram quatro genes nas células. "Não se imaginava que fosse ser tão fácil", disse Thomson. "Milhares de laboratórios podem começar a fazer isso a partir de amanhã". Cientistas valorizam células-tronco embrionárias porque elas podem se transformar em qualquer tipo de célula do corpo.

CÉLULAS VERSÁTEIS - O novo trabalho mostra que a reprogramação direta de células também pode produzir células versáteis geneticamente compatíveis com o doador, mas evita diversos problemas que surgiram com a abordagem da clonagem. Por exemplo, não requer um estoque de óvulos humanos, que são difíceis de obter e requerem que a doadora se submeta a uma cirurgia. Além disso, os óvulos são usados para dar origem a embriões que têm de ser destruídos para a extração das células, o que é considerado inaceitável pela Igreja Católica e outros grupos.

Ainda há dúvidas sobre a eficácia das células produzidas por reprogramação, chamadas células iPS. Ainda não se sabe se elas têm realmente todo o potencial das células embrionárias - Yamanaka disse ter detectado diferenças em atividade genética. Se as células iPS forem substancialmente diferentes, poderão se mostrar mais úteis para certas aplicações, enquanto as células embrionárias continuarão a ser necessárias para outros tipos de uso - por exemplo, no estudo da raiz genética de doenças.

Fonte: Agência Estado


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