Teu lápis te condena a brunir/ O que na vida é verbo e imagem:/ inclusive a chave de ouro dos sonetos/ onde as palavras fremem de amor./ No teu lápis cabem os teus livros/ o copo de água e luz de tua namorada:/ as palavras que sonham e amanhecem/ respirando em tuas mãos como asas abertas. Estes versos, do livro Termo de Posse, que abrem a reunião de livros de Jaci Bezerra (nunca uma “antologia”, como ele mesmo deixa claro), exprimem bem o caráter de aprimoramento estético e exercício lírico desse alagoano radicado no Recife. Bezerra desenvolveu uma trajetória quase monástica com sua poesia, que vem resultar em seus livros Livro das Incandescências, Livro de Olinda, Inventário do Fundo do Poço, A Onda Construída, Lavradouro, além do já citado Termo de Posse e o aclamado Comarca da Memória. Jaci Bezerra sempre agradou aos críticos, do Nordeste e Sudeste do país. Este último fez Edson Nery da Fonseca afirmar, em prefácio a sua primeira edição, que bezerra não era apenas o maior de sua geração, mas um dos grandes da língua portuguesa, estando ao nível de Pessoa e bandeira, Mourão Ferreira e Drummond, José Régio e Jorge de Lima.
Termo de Posse inicia a antologia. Inédito, é um presente de Jaci aos seus leitores. Além de falar de Murici, sua terra, e de tecer homenagens a amigos como Fernando Spencer, Juhareyz Correia, Vitalino, César Leal, Gladstone Vieira Belo, Tadeu Rocha, entre outros, escreve alguns belíssimos poemas dedicados à sua mulher, Elisabete, registrando-a poeticamente entre livro, nuvens azuis ou amanhecendo e descansando na luz, afirmando: É irreal no papel quando a transponho/ Com grafite e palavras, bela e mansa,/ e por ser irreal ela me alcança,/ e ocupa o espaço destinado aos sonho (p. 34). Nessa experiência do amor compartilhado, descobre a essência madura da paixão: Amor de nós, onde não há morrer,/ e tudo, incluída a noite repetida,/ (...) Amor que eternizando o que é momento,/ unindo o que viveu ao que é vivido/ não distingue me seu entendimento/ em nós o possuidor do possuído (p. 34-5). Em diversos trechos, Jaci demonstra a influência que a terra que o adotou exerce sobre sua obra, inclusive com embriagezes poéticas: No Recife me perco e me inauguro/ pisando acácias e águas machucadas,/ no bolso o sol ferido, um sol maduro/ escorre, úmido, e acende a madrugada (TATUAGEM NA ÁGUA, p. 85); Sendo pacífico o sol e o inverno louco,/ o homem, tomando um porre de beleza,/ deixou a luz invadir seus olhos ocos./ Nada do que sentia era abstrato,/ só o azul, perturbando a natureza,/ tinha uma enorme vontade de ser pássaro (SOUVENIR DO PÁTIO DE SÃO PEDRO, p. 86). Os pais e amigos constituem a mitologia pessoal do autor, que o acompanha em seu processo de criação: os meus mitos são meus, vivem comigo,/ são minha mãe, as saudades do meu pai/ e essa doída ternura que não sai/ de meu peito e me segue por onde sigo (AS CONFISSÕES DA POESIA, p. 68)
No Livro de Olinda, Jaci, declarando seu afeto pela cidade-patrimônio da humanidade, declara que é: Um volume de sonho e luz aberto/ nas prateleiras do ar,/ aos olhos revelando um mundo impresso/ em água e eternidade, em brisa e mar./ O sonho extinto em quem, sonhando, a veja/ mesmo extinto não finda/ que o olhar sonha quando a lembra, acesa,/ e quando a esquece, sonha mais ainda (p. 155). O poeta desenha uma topografia poética da cidade histórica, destacando suas origens, seus monumentos e confirma ser a cidade feita só de desejo, conforme Carlos Pena Filho: Olinda não se toca, é só desejo;/ ninguém diz: é lá que eu moro, mas diz: é lá que eu vejo. Para o mais recifense dos poetas, como afirma Gilberto Freyre, manda um recado: Carlos, o Recife/ anda hoje em dia/ pobre de azul/ e de poesia. (...) De azul apenas/ os teus poemas / em nossas mãos. Talvez o azul faltante de que fala o autor seja explicitado no esmagamento da cidade e o desprezo dos políticos e seus habitantes para com as crianças e adolescentes abandonados. Numa estupefação ao avesso, Jaci os compara, com bem construída metáfora, aos anjos, tornando claro aos nossos olhos o que evitamos enxergar: Recuse a infância, recuse o que é invento/ e, se puder, o desejo de aventura:/ corra do alumbramento e da ternura/ (...)A lama, o lixo, a fome, não os evite, são partes da paisagem, são chagas: e veja, quando sentir o peito em brasa,/ como é que nascem os anjos do Recife (CARPINTARIA DOS ANJOS, p. 77). Esse poema também é emblemático, pois comprova como o mais alto lirismo não se desvencilha da preocupação social, como alguns críticos querem afirmar. Bezerra também deixa patente sua admiração e influência que alguns poetas exerceram sobre sua obra, como Manuel Bandeira, ao qual dedica um poema, PRESENÇA DE MANUEL BANDEIRA, além de cita-lo em alguns trechos de outros, como ELISABETE ENTRE LIVROS, quando se alimenta do gosto cabotino da tristeza, ao dizer: Fica, como uma vez ficou Bandeira, com uma enorme vontade de morrer (p. 33).
Recife, de uma forte tradução literária, cai profundamente na alma do poeta, com virilidade e delicadeza: Guarda a cidade num dos arquipélagos da alma/ como quem ganha na estante os seus poetas prediletos: Bandeira, Cardozo, João, Carlos Drummond de Andrade./ E sabe, ao amorosamente floreá-la, que pode ir dormir como homem e acordar como acácia (RECIFE, GEOGRAFIA PESSOAL, p. 87). Numa excelente crítica publicada no Diário de Pernambuco em 20/10/1997, César Leal, grande incentivador de sua carreira, confirmou que Jaci Bezerra escreve os seus poemas, executando, com precisão, rigoroso cálculo artístico. É um poeta forte. Tão imune à arrogância que poderia dizer com Rimbaud: Par délicatesse / J'ai perdu ma vie (Por delicadeza / Eu perdi minha vida).
Nesse sentido, embora não reconhecendo, podemos notar em alguns versos de Jaci a perspectiva cabralina de trabalhar, com disciplina, a poesia; as palavras, para Jaci, não nascem de momentos fortuitos de inspiração, mas no manuseio, na lavragem, na lapidação dos versos: Lavre a palavra sã/ mesmo se acaso oculta,/ nenhuma luta é vã/ quando alguém nos escuta:/ dói somente a areia/ e tanta angústia, creia! (LAVRADA VIDA, p. 217). Porém, para o autor, a técnica desencarnada do sentimento não é poesia, embora rebuscada. Há de se colocar o afeto do poeta em seu trabalho: Onde a palavras antiga/ florir, embora amarga,/ lavre, será cantiga/ a palavra abrasada:/ dói semear a vida/por acaso esquecida./ O verso derradeiro/ o coração o sente/ púrpuro aceso cheiro,/ rubro verão candente: dói semear a tarde/ se o coração não arde. (IDEM, P. 218)
Poiesis é uma palavra de origem grega que significou inicialmente criação, ação, confecção, fabricação e depois terminou por significar arte e faculdade poéticas. Fugindo de eruditismos e rebuscamentos, mas não se entregando à estética simplista de muitos de nossos autores contemporâneos, Jaci constrói laboriosamente uma poesia na mais pura concepção do termo poiesis, revelando-nos a beleza do quotidiano, da observação dos fatos e da natureza, numa reflexão amadurecida do amor. Comparando Jaci ao poeta Blaise Cendrars (1887-1961), Wilson Martins afirma: Sua poesia é feita de acumulação de pequenas notações concretas e poéticas (Jean-Carlo Fluckiger). Contudo, a especificidade das composições de Cendrars, como das de jaci Bezerra, estar em serem precisamente o contrário do poema em prosa: neste último, a prosa se esforça, na maior parte dos casos em pura perda, por alcançar a linguagem poética: em Cendrars, como em Jaci bezerra, a expressão é prosaica, constituída pelo vocabulário e referente á vida de todos os dias, mas a sugestão é altamente poética (p. 242).
A Onda Construída, dedicado a Maximiano Campos, é explicado pelo próprio poeta nos versos de TEMA PARA UMA CANÇÃO LÍRICA: Tua onda de andorinhas desmanchadas/ entre os alvos lençóis/ que constrói e desmancha, onda, a abrasada,/ onda que abrasa a nós. Noutro trecho do “Termo de Posse”, estabelecendo sua casa interior, aproxima a nostalgia do passado com a solidão dos olhos dos mortos, numa fortíssima figura de linguagem: Uma casa doendo, toda feita de verbo e música,/ impregnando a carne e a alma de nostalgia e tempo:/ mais extensa que a vida, bem menor que a lembrança,/ triste e pesada como a solidão nos olhos dos mortos (A CASA NO INTERIOR DA CASA, p. 89). Nessa Onda Construída, Jaci escreve a mais perfeita definição que ouvi até hoje de solidão: solidão, pedra nua que persiste/ em doer, mesmo atada (p. 208). Solidão que volta forte AO DESATAR A LUZ QUE ME FERIA: Repete, sempre, o dia a solidão/ e é sempre a mesma chaga todo dia:/ a ternura se esmaga em minha mão/ e em mim a madrugada principia (p. 100); e, por isso, a saudade é uma asa/ ardendo na madeira de meu ombro (INÍCIO DA TERNURA PRESSENTIDA, p. 143).
O Livro das Incandescências ilumina nossa vida com suas memórias e conflitos, revelando o apelo às profundezas que o poeta sente me seu íntimo: Esse livro é o livro dos remorsos,/ inventário de um tempo hoje disperso:/ nele sou luz e cor e me despeço,/ sou também treva e sonho e, nele, endosso (NESTE CANTO FINQUEI MEUS ALICERCES, p. 99); para sobreviver rasguei as máscaras/ e descobri que sou demônio e santo./ A minha vocação é a dos abismos,/ daí amar o riso quando limpo:/ disfarço meu remorso e meu cinismo/ fazendo o que não quero e o que não sinto (p. 101-2). Nesse livro, além da recorrência à infância, Jaci revela uma forte carga de erotismo: enquanto a luz, desfazendo seu cansaço,/ refazia a mulher que andava ausente/ trêmulas oscilaram sobre os pelos/ do pincel de marfim gotas de tinta/ e machucaram de amor os seus cabelos/ e suas coxas límpidas e nuas:/ amanheceu na figura a chama extinta/ e coloriu o seu amor e as suas (ENTRE OS MEUS BRAÇOS CLARO SE REVELA, p. 112). Desejo este que nasce das suas fantasias infantis: entre os lençóis de linho e de cambraia/ uma mulher vinha dormir comigo/ soltando as tranças e tirando a saia (ENTRE OS MEUS BRAÇOS CLARO SE REVELA, p. 112). Essa sensualidade é revelada em Recife, por seus sol, seu mangue, sua paisagem: o rio espessas coisas murmurando/ no teu ventre molhado aberto n’água,/ redescobrindo o mangue e me chamando/ a navegar-te a seda das anáguas. (…) chegar perto de ti desesperado,/ afogando os inúteis seios brancos/ que o rio há muito tempo traz lavados./ Não apenas de sol, mas de ternura/ cobrir a flor do mangue brandamente,/ a flor do mangue, as plantas semi-escuras, homens, mulheres, bichos, sua gente (p. 106). A praia, o sol, o céu e as águas nuas/ são os bens do verão que o mar clareia,/ por isso, vasto e insone continua/ a não ver o seu púbis sobre a areia (p. 121).
Em texto publicado em 1966, no Diario de Pernambuco, César Leal aponta sua surpresa diante de dois, então, novos autores: Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo. “Poderia dizer que Jaci é o poeta ‘possesso’, o criador de imagens, o poeta tipicamente moderno pela tendência que tem em criar uma mitologia e simbologia próprias. Para ele, a linguagem funciona como funcionam as cores para um pintor na pintura ‘não objetiva’. Eis porque nele as palavras conseguem criar formas sensíveis, ainda que não reais, oferecendo ao leitor uma série contínua de imagens de uma visibilidade quase pura”, escreveu César Leal. Concluindo o autor um ciclo de criação e novidades poéticas, Schneider Carpeggiani, em resenha publicada no Jornal do Commercio de 5/03/2007, revela: “Linha d’água” é como uma viagem no tempo de Jaci Bezerra. E todo retorno ao passado não deixa de ser uma “viagem ao avesso”, afinal, os cartões postais retratam apenas o ponto de partida.