Alan Luna
Do Caderno C
Quatro escritores, de três nacionalidades e continentes diferentes, se encontram hoje na Livraria Cultura para lançar seus novos livros. A unir essa Babel literária um elemento comum: a língua portuguesa. Os autores são o angolano José Eduardo Agualusa, o português Miguel Gullander e as brasileiras Ana Paula Maia e Christiane Tassis. Além da língua materna, os quatro têm ainda um outro fator a uni-los: a editora Língua Geral, organizadora do evento.
Lançada em outubro último em São Paulo, a Língua Geral é a primeira editora brasileira voltada exclusivamente para os países lusófonos. Na descoberta desse ovo de colombo está sua novidade. E não deixa de ser sintomático que a própria estrutura organizacional da nova empresa seja "multiétnica": seus sócios são a produtora portuguesa Conceição "Connie" Lopes (criadora da Natasha Records), a empresária brasileira Fátima Otero e o já citado José Eduardo Agualusa.
Escritor africano mais festejado no Brasil, ao lado do moçambicano Mia Couto, Agualusa volta ao Recife (onde morou durante o ano de 1998) para lançar o seu novo romance, As mulheres do meu pai, e também para apresentar sua nova faceta de empresário. Em entrevista por telefone, ele explicou os motivos que o fizeram saltar para o "outro lado do balcão". "Essa é uma vontade (editar livros) que todo grande leitor tem. E todo escritor é um grande leitor. É vocação para fazer aquilo que gosta", explica.
E se a intenção é valorizar a língua portuguesa, o momento não poderia ser mais propício, tanto em termos culturais como em termos políticos: "A língua vem crescendo em várias partes do mundo, inclusive pelas áreas culturais, quer através da literatura, da música, do cinema. A língua já tem um Nobel de literatura. Eu acho que ela está em fase de afirmação. Temos uma sensação que pela primeira vez todos os países de língua portuguesa vivenciam a democracia ou a caminho dela. Além disso, pela primeira vez o Brasil traça uma política de aproximação com a África", diz Agualusa.
O continente africano, a propósito, é um dos temas preferidos de Agualusa, que pretende capitalizar a boa receptividade que os escritores de lá têm conseguido no Brasil para divulgar "áfricas" ainda pouco conhecidas por aqui. "A África é muito mais diversificada do que a Europa, por exemplo. Você tem desde países islâmicos a países cristianizados. Há muito mais línguas do que as que se falam na Europa. O meu novo livro se passa entre Angola, Namíbia, África do Sul e Moçambique e mostra essas diferenças, mas mostra sobretudo a capacidade que a África está mostrando de renascer. O Brasil começa a demonstrar interesse pela literatura da África de uma maneira geral. Isso é importante para o Brasil, porque aqui há uma porcentagem grande de pessoas que vêm da África. É importante para devolver dignidade a essas pessoas", diz.
Além da invasão africana ao Brasil, a editora Língua Geral pretende também revelar os "estrangeiros" dentro do seu próprio país: "No Brasil, há uma situação anômala, um pouco perversa, que os escritores que têm condições de publicar estão baseados no Rio de Janeiro e em São Paulo. Queremos dar acesso aos leitores do Rio de Janeiro a escritores de Pernambuco, por exemplo".
Na verdade, a idéia é que, onde houver língua portuguesa, a Língua Geral esteja garimpando a produção. "Uma das virtudes da língua é sua flexibilidade, a capacidadade de se incorporar a diferentes geografias", teoriza Agualusa, exemplificando na prática um sinal dessa flexibilidade: "A gente vai adquirir os direitos de um grande escritor timorense, que não está ainda editado no Brasil, Luís Cardoso" adianta o angolano, que, no evento de logo mais, participa de um debate com os escritores Lula Arraes e Raimundo Carrero antes do coquetel de lançamento.
SERVIÇO:
Apresentação da Editora Língua Geral, com lançamentos de José Eduardo Agualusa, Miguel Gullander, Christiane Tassis e Ana Paula Maia.
Terça (8), a partir das 19h, na Livraria Cultura
Rua Madre de Deus, s/nº, Bairro do Recife
Informações: 2102.4033.