Conto
Bela Bela, por Walmar Andrade Publicado em 21.03.2007, às 12h12
Isabela tinha somente sete anos de nascida, mas já possuía na língua malícias de mulher feita. Menina outono, subtraía do calendário folhas que sempre caíam no primeiro dia de abril.
Usava apenas a primeira metade do nome para se apresentar. O restante deixava como adjetivo para conquistar. Isa cresceu assim, cultivando ódios sinceros através de amores fingidos.
A cada estação, a bela fornecia biscoito de pão-de-ló em uma freguesia diferente. Namorou Estácio, Rocha, Misael, o General Pedra, Aninha, Ramos, Humbert Humbert, César, outra vez o Estácio, Zé Leiteiro, Esaú e Jacó. Estes últimos, simultaneamente.
Certo equinócio, Isa avistou Rodolfo Augusto. Puxou o espelho para retocar o adultério, lustrou o nariz de madeira e ocultou sob esmalte rubro as unhas repletas de manchas brancas surgidas de seu passado negro.
Pela primeira vez, no entanto, tornou-se agente da passiva em uma oração de conquista. Fitando o desejado, a bela inspirou fundo para declarar seu inédito amor sincero. Sua boca, contudo, não sabia pronunciar verdades.
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