A relação entre bandas de metal e os headbangers é uma coisa muito interessante de se observar. Fã de heavy não é como admirador de outros estilos. Diferencia-se, sobretudo, do cidadão que ouve música, gosta do som da moda, do rádio e suporta até Andança, cantada pela Família Caymi. Na segunda coluna Metal Universe, decidi escrever sobre essa relação entre os cabeludos e camisas-pretas (nunca metaleiro) ao comprovar, mais uma vez, como um garoto (principalmente) consegue se apegar a um artista, grupo ou projeto, a ponto de queimar as economias para viajar milhares de quilômetros, seja de avião, ônibus, carro, carona e de carroça, só para ver um show dos seus ídolos. (Lembro que cansei de fazer isso e faço até hoje). Esse assunto surgiu quando comecei a assistir ao grande motivo da coluna desta semana: o novo pacote musical lançado pelo Dream Theater. Em áudio, vídeo e animação, os norte americanos presenteiam os aficcionados ( e bote loucos nisso) com horas e horas de progmetal, hard rock e atuações virtuosas de cair o queixo. O material de Score, uma homenagem aos 20 anos do supergrupo, vale a pena todos as dezenas de reais que custou e, com certeza, atrairá mais fãs para a banda.
Eu acompanho o DT há mais de 14 anos. Desde 1992, quando ouvi os primeiros acordes de Pull me under, do Images and words, descobri a banda que consegua unir num só produto sons tirados por grupos que já curtia. É como se Metallica, Rush, Black Sabbath e Yes tivessem jogado seu elementos característicos num liquidificador e aquilo brotasse espontaneamente. Em dezembro do ano passado, peguei uma economias e me mandei para o Rio de Janeiro para assistir ao show da turnê do Octavarium, último trabalho de estúdio dos caras. Em julho de 2005, já tinha perdido a oportunidade de conferir a apresentação deles no Canadá e nos EUA, por questão de dias. Logo depois desse show na terra do bondinho e do Cristo, fiquei esperando as novidades, catando na internet notícias dos próximos lançamentos do Dream Theater e dos outros projetos paralelos dos seus integrantes (há pelo menos dez). Em março, surgiu a primeira informação sobre o que viria a ser esse pacote metálico: Mike Portnoy, baterista e líder da banda, postou no site oficial a informação de que o DT gravaria um DVD e um CD para comemorar os 20 anos de carreira. Melhor, faria uma apresentação com uma orquestra, em Nova Iorque, terra natal. A partir desse dia, foi contar as horas para conferir. O show em questão foi gravado no dia 1º de abril do Radio City Music Hall, na big apple, com gente de todos os cantos do mundo. Há bandeiras do Brasil na platéia. (confira as entrevistas dos fãs malucos no início do DVD e entenda o que é seguir uma banda como o DT).
Depois da gravação, os caras deram uma sumida do mapa de informações da internet e notícias sobre o Score só voltaram a circular perto do lançamento. Fiquei esperando o material sair por uma gravadora nacional, mas não teve jeito. Tive que apelar para o importado. No dia do lançamento do CD (29 de agosto) baixei o danado, mas faltava o vídeo. Procurei nas lojas e já tava ficando conhecido como aquele cara que pergunta três vezes por semana "cadê o DVD novo do Dream Theater?" Finalmente, achei um site que oferecia tal material por um preço não tão absurdo e mandei buscá-lo, o mais rápido possível. Na terça-feira passada, já de madrugada, depois de trabalhar de dia e ensaiar de noite, até 1h30, me deparei com a caixinha na portaria do prédio. Não deu outra: foi o resto da noite na frente da TV. Garanto que valeu a pena.
O DVD duplo traz um material farto e deixa qualquer fã (de novo ele) de cabelo em pé. No disquinho 1 está a apresentação do show de aniversário. Tem as mesmas músicas do CD triplo, com um repertório elaborado com cuidado, lembrando todas as etapas da carreira, iniciada num sala de aula da escola de música de Berklee, nos EUA, onde o já citado Portnoy conheceu o baixista John Myoung e o guitarrista John Petrucci.
Em quase três horas de show, o DT executa cinco das oito músicas do Octavarium e uma de cada álbum anterior, com direito a Another won, canção da época em que eles eram conhecidos por Majesty, nome escolhido em homenagem ao Rush (de novo ele). Por causa das passagens antológicas de Bastille day, Portnoy disse que queria ter uma banda com músicas majestosas como aquela e aí ficou o nome (recordar é viver). Eles tiraram do fundo do baú Raise de knife, composta nas sessões de Falling into infinity (1997), mas que nunca tinha sido lançada. No mais, estão lá Metropolis, a melhor como sempre, Under a glass moon, do Images and words (escute o solo de guitarra e saia para comprar o disco) e The Spirit
carries on, do Scene from a memory (2000), que emociona todo o mundo. A platéia enlouquece e os músicos também. É de arrepiar mesmo.
A diferença em Score está na extrema qualidade musical e no bom gosto e simplicidade da produção. O som impecável, a direção de câmeras dá um show. Não tem fumaça nem luzes espocando o tempo todo. A capa é simples e o som é o que mais importa. Mike, Petrucci, Myoung, Jordan Rudess (teclados) e James La Brie (vocais) ainda vão mais fundo. Fazem da ousadia uma marca. Nada de jogar para a platéia e tocar só hits clássicos imediatos. Em Score, o DT mais uma vez saiu na frente. Na segunda parte da apresentação, o que corresponde ao segundo CD, se propõe a tocar na íntegra a música Six degrees of inner turbulance, com suas oito partes e mais de 40 minutos de duração. Para brindar o espectador e o telespectador com a suíte na integra, uma novidade. As partes orquestradas não seriam simuladas nos teclados, mas feitas ao vivo. Vale um parêntese aqui. Misturar metal e orquestra virou arroz de festa depois do S&M, do Metallica (98). O Deep Purple fez em 1968, em Londres, mas a idéia na época era tocar as canções, com inspiração lírica, do tecladista Jon Lord. Trinta anos depois, o Purple voltou a testar a mistura, dessa vez levando os clássicos da carreira. Até o Kiss inventou um projeto para tocar com a sinfônica de Melbourne, Austrália. Embora
goste muito de Gene Simmons, Paul Stanley, das máscaras e do hrad rock, vamos ser honestos: o som deles combina tanto com violino e harpa quanto calda de caramelo combina com buchada. Com o DT é exatamente o contrário. O som casa perfeitamente. A orquestra não aparece só para colocar pequenas frases no meio do metal, assim como ocorre nas músicas mais pesadas do Metallica. Tudo se encaixa. E Portnoy, com sua camisa imitando um smoking, comanda tudo, com sua monstruosa batera, de três bumbos.
O BICHO PEGOU
Depois de assistir a mais de duas horas e 45 minutos de show, chega a hora de pegar o disquinho 2 e conferir os extras. Lembra do início da coluna, quando falei no fã de metal? Pois bem. Foi para ele e inspirado nele que o DT fez a produção de Score. Nos DVDs anteriores, os caras já tinham feito imagens de backstage e entrevistas interessantes. No Live at Budokan, gravado no Japão, na turnê do Train of thought, por exemplo, eles mostram os equipamentos e instrumentos, mas coisa que várias bandas também já apresentaram. Desta vez, para lembrar os 20 anos, Portnoy, Petrucci e Myoung ousaram mesmo. Voltaram para a Berklee School Of Music para gravar o documentário. Mostram as salas de aula onde praticavam, das 18h às 24h, todos os dias, e contam trechos da história do DT que todo banger que
curte a banda vai pirar. Imagens raríssimas de Criss Collins, primeiro vocalista, entrevista com Charlie Dominicci, vocal que gravou o debut, When night and day unite, em 1989, e uma conversa com Derek Sherennian, ex-tecladista. Faltou dizer só onde anda Kevin Moore, o primeiro tecladista, que deixou o DT após o Awake (1994). O documentário traz, ainda, depoimentos de espectadores, na porta do teatro, contando como conseguiram chegar para o show. Um cara do Texas rodou 26 horas de carro e um outro cidadão passou três dias sem dormir para não perder a carona.
Para terminar o material, tem um desenho animado com a banda tocando Octavarium. Lembra as animações do Rush (de novo eles). Umas aranhas andam pelo braço da guitarra, tocam teclado com Rudess e perseguem La Brie num labirinto, que depois se transforma no logotipo do DT. Legal. Quem ainda tiver fôlego, pode conferir três extras: Another day, gravada no Japão, em 1993, parecido com o material do DVD Live at Marquee, The Great Debate, Bucareste, 2002, e Honor Thy Father, Chicago, 2005. Um material capaz de divertir e emocionar, feito por uma banda que consegue despertar sentimentos opostos: quem gosta, gosta muito e segue todos os passos. Quem não curte, diz que o DT é chato e pretensioso. Que faz música para se amostrar. Quem está no primeiro grupo não pode deixar de comprar esse material. Os incluídos no segundo time deveriam conferir e se render ao talento dos caras e se tornar novos fãs. DT rules.
LICKS
Nas minhas caminhadas em busca do Score, do Dream Theater, também procurei um lançamento que despertou a atenção de muita gente, nos últimos meses: o Anthology, de Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden. A proposta era interessante. Colocar numa caixinha só, DVD triplo, uma compilação da obra de um dos maiores cantores do metal em todo os tempos. Era. O material só deixa o fã com raiva. Não por causa da questão musical. Muito pelo contrário. A falta de qualidade de vídeo irrita. O primeiro disquinho traz um show de Los Angeles, 1990, da turnê do Tattooed Milionaire, a primeira de um disco solo do cara. As música são legais, há covers de AD/DC e Deep Purple, Janick Gers (Iron Maiden, na guitarra), mas o som é ruim e direção de câmeras, um desastre. Pegaram o vídeo de Dive!Dive! Dive!, da época do VHS, e colocaram no formato DVD, sem melhorar nada. Quem viu Death on the road, último DVD do Iron, sente falta de produção mais cuidada. Tem, ainda, um show do razoável Skunworks (1996), na Espanha, com qualidade duvidosa de áudio e vídeo também.
O DVD 2 mostra um das maiores apresentações de Bruce, no Brasil, em 1999, mas que não consegue transmitir a quem está em casa nem um pouco do que foi o espetáculo. Mais uma vez, a falta de produção detona um grande produto. Adrian Smith, guitarrista do Iron, que na época tocava com Bruce, está lá, mas a qualidade de áudio prejudica a compreensão dos solos e bases de um dos músicos mais importantes do metal. Vale pelo repertório.
Por fim, o disquinho 3. É o que salva o Anthology. Estão todos os vídeos de Bruce, destacando Tears of the dragon (balada chiclete) e Killing Floor. Confirma também o filme Biceps of steel, de 1980, da época em que o vocalista estava no Samsom, banda contemporânea ao Iron, na qual ele cantou antes de se tornar uma lenda do metal. A história é besta: um roaddie fortão que quebra todo mundo na porrada, enquanto Dickinson e a
banda tocam um play back. Realmente, engraçado. Vale a pena ter em casa imagens dessa época.
RÁPIDAS
Uma notícia chamou a atenção esta semana e deve repercutir muito nos próximos dias. Toni Iommi, guitarrista do Black Sabbath, estaria pensando em retomar o trabalho com o lendário vocalista Ronnie James Dio (Rainbow, Black Sabbath), lembrando os velhos tempos do Mob Rules, Heaven and Hell e Dehumanizer, três verdadeiros clássicos do metal. O nome da banda: Black Sabbath? Não. Por motivos ainda não divulgados (deve ter dedo de Ozzy Osbourne na história) os caras usariam o logo Heaven And Hell. Que venha o tal projeto!
Às vezes, os bangers são fulminados com frases deste tipo: "Há vida inteligente no mundo do metal?" Quem gosta de garimpar CD e tem curiosidade em conhecer artistas de grande talento que militam nessa área deve escutar Alex Skolnick. O guitarrista da formação original do Testament, banda de thrash americana, dos ano 80, hoje toca jazz e fusion. Lançou dois discos executando clássicos do metal com um trio jazzista, com direito a baixo acústico. Vale a pena ter em casa ou baixar na internet.
Até a próxima semana.