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Pólis

O vôo do tucano

SÉRGIO MONTENEGRO FILHO é repórter especial da Editoria de Política do JC

Conhecido habitante das florestas tropicais do Brasil, o ramphastos toco -­ ou simplesmente, tucano - tem características bastante comuns às demais aves de pequeno porte: longas asas e capacidade de voar. Mas toda regra tem sempre uma exceção. Há, no Brasil, um certo representante tucano - habitante das grandes metrópoles da região Sudeste - que por mais que se empenhe em voar, tudo o que tem conseguido até agora é despencar nas pesquisas de intenção de voto.

Essa parece ser mesmo a sina do ex-governador paulista Geraldo Alckmin. Desde que entrou na disputa pela Presidência da República representando o PSDB, ele insiste em marcar, sem sucesso, datas para fazer sua candidatura alçar vôo. Sua única tentativa bem sucedida em todo o processo aconteceu na disputa interna do PSDB, quando garantiu a preferência dos correligionários pelo seu nome em detrimento do colega paulista José Serra, que postulava uma nova chance de enfrentar o presidente Lula na corrida rumo ao Palácio do Planalto.

 

Vencida a etapa interna, porém, Alckmin passou a colecionar tombos e a rolar ladeira abaixo. Ainda durante o período de pré-campanha, embora favorito no partido, por mais que andasse pelo País o ex-governador não conseguiu virar os índices das pesquisas em seu favor. Foi então que decidiu estabelecer a convenção nacional tucana como primeira data para a "decolagem". Triste ilusão. Realizada no final de junho, a convenção homologou a candidatura de Alckmin, mas não lhe proporcionou o mais leve impulso, e durante todo o mês de julho ele continuou amargando resultados pífios nas sondagens dos institutos de pesquisa.

 

No começo de agosto, o presidenciável decidiu mudar de estratégia. Marcou o dia 15 daquele mês - data de estréia dos programas do guia eleitoral na televisão e rádio - como limiar definitivo para o tão esperado vôo solo. Mas novamente veria seu projeto despencar, em uma situação agravada pelo crescimento da candidatura de Heloísa Helena, do P-SOL. Representante da esquerda radical-sonhadora, a senadora alagoana terminou abocanhando uma fatia dos votos que estavam nos planos do PSDB.

 

Passada a euforia da "Onda Helô", porém, novas pesquisas mantinham o candidato tucano preso à árvore e sem condições de ganhar os céus. Pela terceira vez, Alckmin decidiu agendar a "decolagem". Dessa vez, está prevista para esta semana. A estratégia do PSDB é catapultar o candidato usando como contrapeso os fracos índices de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

 

Segundo levantamento de analistas, o PIB do segundo trimestre do ano deve crescer menos de 1% em relação ao primeiro trimestre. Um alerta para o País, na avaliação do ex-governador. Segundo ele, crescendo apenas 2% ou 3% ao ano, a renda per capita do brasileiro levará cerca de 100 anos para dobrar. Faria sentido, se ele não completasse a crítica citando países como a China e a Argentina como exemplos de crescimento, ou desse um show de inabilidade política ao comparar os índices do PIB obtidos durante a gestão do presidente Lula com os da época do regime militar, numa postura absolutamente inadequada a um político que se propõe a galgar o poder máximo da nação. "Na década de 70 o País cresceu mais. Os mais velhos, como eu, sabem que o Brasil cresceu forte e depois parou. Imagine na hora em que tivermos uma recessão pela frente?", profetizou. Trágico, para dizer o mínimo.

 

É por essas e outras que o ex-governador não tem conseguido evitar a revoada de políticos tucanos e de partidos aliados para o palanque petista, sobretudo nos chamados grotões do País, pequenas cidades onde ideologia e coloração partidária importam bem menos que comida, água, saúde, educação e moradia. Direitos que, mal ou bem, vem sendo garantidos pelo governo Lula à população, ainda que de forma tão assistencialista como as praticadas por antigos coronéis.

 

Para os petistas, porém, os resultados é que importam. E se refletem nas pesquisas, que têm deixado muitos prefeitos na incômoda situação de ter que mudar de palanque para sobreviver politicamente. O exemplo mais emblemático talvez seja o de Garanhuns, terra natal do presidente petista, governada por Luís Carlos Oliveira, o Luís da Farmácia. Peemedebista convicto e aliado do ex-governador Jarbas Vasconcelos - maior liderança de oposição ao PT no Estado - ele fechou com Lula, mesmo enfrentando sucessivas ameaças de expulsão do partido.

 

Situações como essa vêm acontecendo nas pequenas cidades por todo o País. Afinal, colocar-se contra o que está dando certo pode comprometer os planos futuros de qualquer prefeito. Isso sem falar nos candidatos a governador aliados de Alckmin. Alguns deles anteviram a situação crítica e trataram de escondê-lo do palanque. A ordem é não ser puxado para baixo na próxima vez em que o tucano tentar alçar vôo.

*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do JC OnLine


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