Nanotecnologia, um dos mais novos e sofisticados campos científicos, não se restringe à atuação dos pesquisadores e acadêmicos. Em artigo anterior, esse tema foi abordado dando ênfase aos avanços vinculados ao campo da saúde. No entanto, as descobertas realizadas a partir das nanopartículas, cuja escala corresponde a um bilionésimo de metro, geram conhecimentos, produtos e serviços em vários outros setores e áreas profissionais.
A nanoteconlogia provoca a auto-organização das moléculas em estruturas maiores, de modo similar às moléculas biológicas, permitindo que se compreeenda e controle a matéria. Para se ter uma idéia da medição da escala do nanômetro, ele está para o metro, assim com um grão de areia de 1 mm está para uma praia com 1 km de extensão.
No entanto, nem sempre a nanotecnologia foi vista com crédito. Nos anos 80, o conceito de nanotecnologia foi popularizado por Eric Drexler através do livro "Engines of Creation". Este livro baseou-se no trabalho desenvolvido pelo referido cientista, primeiro a doutorar-se no assunto pelo MIT. Na ocasião, a comunidade científíca duvidou desses estudos, considerou a abordagem próxima da ficção científica e não acreditou que pudessem gerar efeitos práticos.
Hoje, a realidade comprova o equívoco de tal descrença. Abrem-se infinitas possibilidades e promessas tecnológicas revolucionárias que beneficiam a medicina, física, química, biologia, engenharia dos materiais, a indústria têxtil, farmacêutica, de embalagens para cosméticos, alimentos e automotiva, como veremos a seguir. Os especialistas afirmam que a geração de produtos existentes atingirá a cifra de 2,6 trilhões de dólares em 2014.
Na indústria têxtil, o uso de aditivos têxteis - nanopartículas de amaciantes - garantem maior absorção e maciez ao produto. O algodão recoberto por nanopartículas de prata é um tecido que pode exterminar micróbios e combater cheiro de suor. A Lee e GAP são empresas que vendem confecções com garantia contra manchas.
A indústria farmacêutica abriu oportunidades de negócios, especialmente, para aquelas que produzem cosméticos, a partir dos novos produtos. O Brasil exporta para a França quatro emulsões à base de substâncias retiradas da andiroba, cupuaçu, castanha-do-pará e maracujá, que estão entre os cinco produtos mais procurados pela clientela.
A indústria automobilística ganhou materiais que aumentam a durabilidade dos pneus, verniz que dá mais brilho e mais resistência à pintura; vidros que não embaçam, lubrificantes mais econômicos e menos poluentes e latarias que, em contato com o sol, resultam em energia para o carro, além de pára-choques mais resistentes.
A Suzano Petroquímica registra a sua primeira patente em Nanotecnologia, após dois anos de pesquisas e de um investimento de 20 milhões de reais. De acordo com Cláudio Marcondes, gerente de Desenvolvimento de Novos Produtos, junta-se o polipropileno à partícula cerâmica de tamanho nanométrico, criada pela empresa, e resulta em um produto com características diferenciadas, como a propriedade de barreira a gases e maior rigidez.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ligada ao Ministério da Agricultura, lançou, há pouco mais de um mês, o projeto do Laboratório Nacional de Nanotecnologia para o Agronegócio, em São Carlos (SP). Nele, serão investidos 4 milhões de reais. Apesar do recente aporte de recursos, a unidade paulista já tem projetos concluídos. O mais conhecido é o da língua eletrônica. Seus sensores químicos, de espessura nanométrica, permitem, por exemplo, ajudar no trabalho de padronização do degustador do café, num nível de acerto impossível ao ser humano. No solo, o equipamento permitirá que se faça a correção exata de solo com agrotóxicos, sem a necessidade de aplicação dos produtos químicos, além do necessário. O próximo objetivo dos pesquisadores é encontrar uma forma de usar a língua eletrônica no biocombustível.
O casal brasileiro Wadih Arap e Renata Pasqualini, do M. D. Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas (EUA), ao lado do químico Glauco R. Souza, criou uma forma de levar remédios às células doentes, sem prejuízo das sãs. O estudo foi publicado no início do ano na The Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Mesmo com a descoberta, Arap acredita que ainda é cedo para comparar as terapias já existentes com a que utiliza a nanotecnologia – se representará mais eficiência ou economia para os doentes.
Resumindo, a nanotecnologia será uma revolução tecnológica de grande abrangência e de impacto talvez sem precedentes na história. Ela é o passo final, ou quase, do homem na busca pelo controle da matéria. Suas conseqüências trarão enormes avanços ao bem estar material das pessoas e na sua saúde, além da redução do impacto da atividade industrial sobre o planeta, tanto pela produção de bens mais duráveis quanto pela maior eficiência na utilização da energia.
Petrus Santa Cruz, professor do Departamento de Química Fundamental da UFPE, lembra em recente entrevista , que a UFPE foi a primeira universidade a implantar a disciplina no seu currículo. Como se trata de uma área interdisciplinar, pode-se fazer cursos diversos (Física, Química, Biologia, etc.) para se especializar nesse novo campo.