A violência atinge índices alarmantes em todo o País. No ranking nacional, o Estado de Pernambuco ocupa o segundo lugar em número de óbitos por armas de fogo (39,8 óbitos por cada 100 mil habitantes)1 , enquanto Recife apresenta o maior risco de assassinatos, segundo dados do IPEA2 . A gravidade desse quadro aumenta quando se constata que os principais atores da violência são adolescentes e adultos jovens. Dos presidiários de Pernambuco, 60% estão na faixa etária entre 18 e 20 anos de idade. Penso que esses dados demonstram a violência como resposta à exclusão social.
Sabemos que são diversas as causas da violência: alta concentração de renda nas mãos da minoria da população e, especialmente, a desarticulação das políticas públicas que bloqueia saídas viáveis por meio de ações integradas e de qualidade entre os sistemas de saúde, educação, habitação e segurança. Não há dúvidas de que a educação é uma via por onde pode ser feita essa integração. O problema é que a escola não exerce o papel de articular o conhecimento, à realidade e ao mundo do trabalho. Tripé imprescindível para garantir a permanência dos estudantes na escola, porque assim a aprendizagem poderia adquirir sentido.
Apesar dos últimos governos federais investirem em ações e incentivos para manter a criança na escola e capacitar os jovens para o primeiro emprego, na prática, os resultados não são eficazes. Em sua grande maioria, os estudantes, analfabetos funcionais e sem competência, são lançados no exigente mercado de trabalho sem condições para se engajarem na vida profissional e social.
Essa situação reflete as distorções da concepção de educação vigente no País. Professores são continuamente capacitados para a reciclagem de conteúdos específicos, sem que seja feito investimento similar no preparo para lidarem com o universo dos alunos, cujos valores, cultura e saber são distintos dos seus.
Uma excelente visão dessa deprimente realidade foi dada pelo documentário Para o dia nascer feliz, de João Jardim, exibido no recente evento Cine PE 2006. Os depoimentos evidenciam a posição dos professores e alunos frente à educação, em diferentes camadas sociais. Na camada menos favorecida, em particular, foi demonstrado que a escola é um lugar onde se desenvolve uma cena da qual fazem parte professores que cumprem cargas horárias e alunos que não vêm o menor sentido naquilo que escutam.
Tudo acontece em um clima de preconceito, descrédito, descaso e de temor por parte dos professores, caracterizando uma luta de classes que cava um abismo intransponível. Um ensino que não faz sentido, não pode favorecer a permanência do estudante na escola, tampouco, oferece visão de futuro. Abre-se uma fenda na estruturação da consciência crítica e no lugar do cidadão no mundo.
Para extinguir a dualidade ensino para pensar e ensino para fazer, em 1996, foi aprovada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
Essa lei propiciou a reforma do ensino médio, que tem como ponto central fazer da formação técnica um complemento da educação geral. Porém, não basta implementar leis, nem apenas lançar programas de capacitação em massa para jovens carentes, tendo como único critério para abertura dos cursos, as demandas do mercado de trabalho, como tem acontecido atualmente.
Mudanças sociais resultam de políticas públicas que promovam um elo entre a educação, preparação para a cidadania e para o trabalho, sem perder de vista a singularidade dos alunos. Pois, o sentimento de pertinência é a força propulsora da motivação, que não está desatrelada do reconhecimento das condições pessoais e das afinidades existentes com os diversos campos do conhecimento: artes, comunicação, ciências exatas, ciências da natureza.
Sensível ao atendimento dessa necessidade que deve ser propiciada pelas instituições de ensino, a vereadora Luciana Azevedo investiu e conseguiu aprovar a ementa que instituiu a criação do Serviço de Orientação Profissional nas Escolas da Rede Municipal de Ensino. Essa proposta propõe um serviço que articule conteúdos pedagógicos às experiências e interesses dos alunos, com o objetivo de desenvolver conhecimentos sobre a formação, atividades e práticas sociais das profissões, relacionando-os às perspectivas do mercado de trabalho.
O sucesso de um serviço de orientação profissional desse porte só é possível quando a lei se efetiva na prática. No caso, se todos os atores da escola se comprometerem com a proposta. A direção, patrocinando com firmeza as ações necessárias. Os coordenadores e professores, pela importância do seu lugar, sendo envolvidos no processo, para legitimá-lo e conscientizar os alunos e seus pais sobre o valor da construção do projeto profissional, como etapa inaugural da entrada do jovem no campo privilegiado do trabalho, onde é possível conseguir reconhecimento pessoal e inclusão social.
Aliás, os professores detêm o poder de exercer um papel estratégico, como por exemplo, articulando ao conteúdo das disciplinas, reflexões abrangentes sobre o mundo do trabalho: sistemas sociais; direitos, deveres e mudanças das relações trabalhistas no Brasil e no Mundo; modos de produção local e nacional; realidade do mercado. Além das intervenções dos profissionais especializados em orientação profissional.
Revista Algo Mais, ano 1, nº 2, Recife, abril/ 2006 e Caderno Especial, Jornal do Commercio, 30/04/06
Idem.